Somos um povo bipolar?

Publicado originalmente no jornal Hoje em Dia, em 15/04/2012

Patrus Ananias

Na visão de alguns estudiosos, somos um país dual e bipolar. O dualismo refere-se às desigualdades e a bipolaridade, a um traço do comportamento do nosso povo. Ou ficamos muito entusiasmados com as conquistas que alimentam sentimentos ufanistas, ou ficamos deprimidos com a realidade ainda difícil. Penso que precisamos encontrar uma visão mais equilibrada sobre nós mesmos, sobre as possibilidades e as limitações que estamos acumulando em nosso processo histórico.

Começamos pelas notícias que nos provocam a euforia. Não há como negar que avançamos muito nos últimos anos. Quem diz o contrário ignora que não há muito víamos na televisão reportagens sobre os efeitos devastadores da fome provocada pela seca. O ciclo da seca se extinguiu? Não. Mas mudaram as condições e políticas públicas sociais voltadas para os mais pobres da região do semiárido. E a fome endêmica não existe mais. Não mudou a natureza. Mudou o país. Também os relatórios de mortalidade produzidos pelo Ministério da Saúde nos mostram, em sua série histórica, que estamos conseguindo uma redução significativa da mortalidade infantil. E também há importante redução da morte causada por doenças que podem ser evitadas.

Ao mesmo tempo, o mesmo relatório mostra o outro lado: o perfil da mortalidade no país mudou e hoje a violência mata muito mais. E esse é um dos lados que coloca o povo em depressão. E a desigualdade também está identificada na morte. Jovem preto e pobre: esse é o perfil da principal vítima dessa violência.

Tudo isso para dizer que avançamos muito, é verdade. Mas ainda são muitos os nossos desafios. A juventude da periferia dos grandes centros – não só ela, mas sobretudo essa juventude – nos interroga a cada momento querendo saber que respostas temos para dar. Sem essa resposta, ficaremos sem projeto e nossos jovens, sem perspectivas de futuro.

Nesse contexto, a educação se destaca como o grande tema com capacidade de articular e integrar as várias dimensões do desenvolvimento humano. Uma educação de qualidade acessível a todas as crianças e adolescentes do país – considerando todas as etapas, do infantil ao ensino superior – é fundamental para que a distribuição da riqueza seja mais justa. Se não cumprirmos esse desafio, o Brasil pode não dar o salto que a gente quer que dê e ficar aquém das expectativas no bicentenário de nossa Independência, em 2022.

Mas temos também de ter a consciência de que esse desafio é o de promover a educação para além da escola. O que queremos é uma sociedade pensante, na qual todos têm seu papel a cumprir, inclusive os meios de comunicação, na formação de valores comuns que orientem a perspectiva de um país mais justo e solidário, com condições e oportunidades iguais para todos.

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