A Páscoa, em todos os dias

Publicado originalmente no jornal Hoje em Dia, em 8/04/2012

Patrus Ananias

Os tempos são difíceis e cada vez mais precisamos celebrar e promover a vida, que é o sentido da Páscoa. Quando penso nesse propósito, logo me vêm à memória as mortes violentas, em especial as quase 41 mil mortes por acidente de trânsito que nos assombram. Dom Hélder Câmara certa vez comentou, sobre o fato de voltar aos mesmos assuntos, que a gente repete, repete, mas as coisas não mudam! Por isso, permito-me repetir o assunto, diante da dramática constatação de que “as coisas não mudam”, porque perseveramos na esperança de que algum dia mudem.

A banalização da morte e da vida é hoje, talvez, o principal desafio que temos a enfrentar se queremos, um dia, conseguir uma celebração plena de páscoa. E o número de mortes violentas no trânsito, sem aumentar ou diminuir a dramaticidade das outras formas prematuras e também violentas da morte, é um desses desafios contundentes, sobretudo quando confrontados com o total silêncio de governos federal, estaduais e municipais, e também com o forte lobby da indústria automobilística. O tema nos salta aos olhos ainda quando se destacam as muitas possibilidades preventivas desperdiçadas, por parte principalmente dos governos, mas também de cada um de nós.

Se as iniciativas mais elementares para evitar perdas prematuras da vida não são tomadas, estamos diante de descasos explícitos com a vida humana. A defesa da vida não se dá no abstrato.

Recentemente, a mídia noticiou com destaque os oito mil mortos nos conflitos na Síria. De fato, uma tragédia que merece a comoção e a mobilização da comunidade internacional. Cada vítima da violência das guerras torna-se um vizinho da grande cidade que acolhe a humanidade. Ao mesmo tempo, com os 41 mil mortos nas ruas e estradas brasileiras, o destaque não é o mesmo. Quantos mais precisarão morrer?

Não podemos dizer que haja total insensibilidade. O próprio Hoje em Dia encampou uma luta em defesa dos pedestres, do respeito no trânsito. Há pessoas que se mobilizam para sensibilizar os outros sobre a responsabilidade ao volante. A legislação aperta o cerco aos motoristas que insistem em dirigir embriagados, mas a inconsequência perversa continua insistindo em descumprir, mais do que a lei, uma regra básica de convivência e respeito à vida. As campanhas publicitárias de automóveis continuam a destacar potência de motor. A velocidade seduz. As estradas continuam em condições precárias; as cidades, sem soluções de mobilidade urbana em patamares mais civilizados. Procuramos ações objetivas e concretas para mudar o quadro, mas não as encontramos.

A esperança é de que a vida seja mais valorizada e possamos combater a barbárie. Combater a violência em todas as suas manifestações é, também, uma forma de celebrar a Páscoa. Que ela ocorra todos os dias.

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