{"id":996,"date":"2014-11-28T15:48:41","date_gmt":"2014-11-28T17:48:41","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=996"},"modified":"2022-11-03T10:44:20","modified_gmt":"2022-11-03T13:44:20","slug":"bolsa-familia-enfraquece-o-coronelismo-e-rompe-cultura-da-resignacao-diz-sociologa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/bolsa-familia-enfraquece-o-coronelismo-e-rompe-cultura-da-resignacao-diz-sociologa\/","title":{"rendered":"Bolsa Fam\u00edlia enfraquece o coronelismo e rompe cultura da resigna\u00e7\u00e3o, diz soci\u00f3loga"},"content":{"rendered":"<div>Compartilho com todos a entrevista que a soci\u00f3loga Walquiria Le\u00e3o Rego sobre o Bolsa Fam\u00edlia, Programa que implantamos em 2003 no governo do ex-presidente Lula.<\/div>\n<div dir=\"ltr\">\n<div lang=\"PT-BR\">\n<p><strong>ELEONORA DE LUCENA<\/strong><br \/>\nDE S\u00c3O PAULO<\/p>\n<p>Dez anos ap\u00f3s sua implanta\u00e7\u00e3o, o Bolsa Fam\u00edlia mudou a vida nos rinc\u00f5es mais pobres do pa\u00eds: o tradicional coronelismo perde for\u00e7a e a arraigada cultura da resigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo abalada.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 da soci\u00f3loga Walquiria Le\u00e3o Rego, 67, que escreveu, com o fil\u00f3sofo italiano Alessandro Pinzani,\u00a0<a href=\"http:\/\/livraria.folha.com.br\/catalogo\/1204532\/vozes-do-bolsa-familia?tracking_number=1411\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">&#8220;Vozes do Bolsa Fam\u00edlia&#8221;<\/a>\u00a0(Editora Unesp, 248 p\u00e1gs., R$ 36).<\/p>\n<p>Durante cinco anos, entre 2006 e 2011, a dupla realizou entrevistas com os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia e percorreu lugares como o Vale do Jequitinhonha (MG), o sert\u00e3o alagoano, o interior do Maranh\u00e3o, Piau\u00ed e Recife. Queriam investigar o &#8220;poder liberat\u00f3rio do dinheiro&#8221; provocado pelo programa.<\/p>\n<p>Aproveitando f\u00e9rias e folgas, eles pagaram do pr\u00f3prio bolso os custos das viagens. Sem se preocupar com estat\u00edstica, a pesquisa foi qualitativa e baseada em entrevistas abertas.<\/p>\n<p>Professora de teoria da cidadania na Unicamp, Rego defende que o Bolsa Fam\u00edlia &#8220;\u00e9 o in\u00edcio de uma democratiza\u00e7\u00e3o real&#8221; do pa\u00eds. Nesta entrevista, ela fala dos boatos que sacudiram o programa recentemente e dos preconceitos que cercam a iniciativa: &#8220;Nossa elite \u00e9 muito cruel&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; Como explicar o p\u00e2nico recente no Bolsa Fam\u00edlia? Qual o impacto do programa nas regi\u00f5es onde a sra. pesquisou?<\/strong><br \/>\n<strong>Walquiria Le\u00e3o Rego &#8211;<\/strong>\u00a0Enorme. Basta ver que um boato fez correr um milh\u00e3o de pessoas. Isso se espalha pelos radialistas de interior. Elas [as pessoas] s\u00e3o muito fr\u00e1geis. Certamente entraram em absoluto desespero. Poderia ter gerado coisas at\u00e9 mais violentas. Foi de uma crueldade desmesurada. Foi espalhado o p\u00e2nico entre pessoas que n\u00e3o t\u00eam defesa. Uma coisa foi a medida administrativa da CEF (Caixa Econ\u00f4mica Federal). Outra coisa \u00e9 o que a policia tem que descobrir: onde come\u00e7ou o boato. Fiquei estupefata. Quem fez isso n\u00e3o tem nem compaix\u00e3o. Nossa elite \u00e9 muito cruel. N\u00e3o estou dizendo que foi a elite, porque seria uma leviandade.<\/p>\n<p><strong>Como assim?<\/strong><br \/>\nTem uma crueldade no modo como as pessoas falam dos pobres. Da\u00ed aparecem os adolescentes que esfaqueiam mendigos e queimam \u00edndios. H\u00e1 uma crueldade social, uma sociedade com desigualdades t\u00e3o profundas e t\u00e3o antigas. N\u00e3o se olha o outro como um concidad\u00e3o, mas como se fosse uma esp\u00e9cie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravid\u00e3o. Nenhum pa\u00eds tem mais de tr\u00eas s\u00e9culos de escravid\u00e3o impunemente.<\/p>\n<p><strong>Qual o impacto do Bolsa Fam\u00edlia nas rela\u00e7\u00f5es familiares?<\/strong><br \/>\nOcorreram transforma\u00e7\u00f5es nelas mesmas. De repente se ganha uma certa dignidade na vida, algo que nunca se teve, que \u00e9 a regularidade de uma renda. Se ganha uma seguran\u00e7a maior e respeitabilidade. Houve tamb\u00e9m um impacto econ\u00f4mico e comercial muito grande. Elas s\u00e3o boas pagadoras e aprenderam a gerir o dinheiro ap\u00f3s dez anos de experi\u00eancia. N\u00e3o acho que resolveu o problema. Mas \u00e9 o in\u00edcio de uma democratiza\u00e7\u00e3o real, da democratiza\u00e7\u00e3o da democracia brasileira. \u00c9 inaceit\u00e1vel uma pessoa se considerar um democrata e achar que n\u00e3o tenha nada a ver com um concidad\u00e3o que esteja ali ca\u00eddo na rua. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o p\u00fablica da maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>O Bolsa Fam\u00edlia deveria entrar na Constitui\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA constitucionaliza\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia precisava ser feita urgentemente. E a renda tem que ser maior. Esse \u00e9 um programa barato, 0,5% do PIB. Acho, tamb\u00e9m, que as pessoas t\u00eam direito \u00e0 renda b\u00e1sica. Tem que ser uma pol\u00edtica de Estado, que nenhum governo possa dizer que n\u00e3o tem mais recurso. Mas qualquer pol\u00edtica distributiva mexe com interesses poderosos.<\/p>\n<p><strong>A sra. poderia explicar melhor?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 hist\u00f3rico. A elite brasileira acha que o Estado \u00e9 para ela, que n\u00e3o pode ter esse neg\u00f3cio de dar dinheiro para pobre. Al\u00e9m de o Bolsa Fam\u00edlia entrar na Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ter outras pol\u00edticas complementares, pol\u00edticas culturais espec\u00edficas. \u00c9 preciso ter uma escola pensada para aquela popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ter outra televis\u00e3o, pois essa \u00e9 a pior poss\u00edvel, n\u00e3o ajuda a desfazer preconceitos. \u00c9 preciso organizar um conjunto de pol\u00edticas articuladas para formar cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>A sra. quer dizer que a ascens\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de consumidores?<\/strong><br \/>\nAs pessoas quando saem desse n\u00edvel de pobreza n\u00e3o se transformam s\u00f3 em consumidores. A gente se engana. Uma pesquisadora sobre o programa Luz para Todos, no Vale do Jequitinhonha, perguntou para um senhor o que mais o tinha impactado com a chegada da luz. A pesquisadora, com seu preconceito de classe m\u00e9dia, j\u00e1 estava pronta para escrever: fui comprar uma televis\u00e3o. Mas o senhor disse: &#8216;A coisa que mais me impactou foi ver pela primeira vez o rosto dos meus filhos dormindo; eu nunca tinha visto&#8217;. Essa delicadeza&#8230; a gente se surpreende muito.<\/p>\n<p><strong>O que a surpreendeu na sua pesquisa?<\/strong><br \/>\nQuando vi a alegria que sentiam de poder partilhar uma comida que era deles, que n\u00e3o tinha sido pedida. N\u00e3o tinham passado pela humilha\u00e7\u00e3o de pedi-la; foram l\u00e1 e compraram. Crian\u00e7as que comeram macarr\u00e3o com salsicha pela primeira vez. \u00c9 muito preconceituoso dizer que s\u00f3 querem consumir. A dist\u00e2ncia entre n\u00f3s \u00e9 t\u00e3o grande que a gente n\u00e3o pode imaginar. A car\u00eancia l\u00e1 \u00e9 t\u00e3o absurda. Aprendi que pode ser uma grande experi\u00eancia tomar \u00e1gua gelada.<\/p>\n<p><strong>Li que a sra. teria apurado que o Bolsa Fam\u00edlia, ao tornar as mulheres mais independentes, estava provocando separa\u00e7\u00f5es, uma revolu\u00e7\u00e3o feminina. Mas n\u00e3o encontrei isso no livro. O que \u00e9 fato?<\/strong><br \/>\n\u00c9 s\u00f3 conhecer um pouco o pa\u00eds para saber que n\u00e3o poderia haver entre essas mulheres uma revolu\u00e7\u00e3o feminista. \u00c9 dif\u00edcil para elas mudar as rela\u00e7\u00f5es conjugais. Elas s\u00e3o mais aut\u00f4nomas com a Bolsa? S\u00e3o. Elas nunca tiveram dinheiro e passaram a ter, s\u00e3o titulares do cart\u00e3o, t\u00eam a senha. Elas t\u00eam uma moralidade muito forte: compram primeiro a comida para as crian\u00e7as. Depois, se sobrar, compram colch\u00e3o, televis\u00e3o. \u00c9 ainda muito dif\u00edcil falar da vida pessoal. Uma ou outra me disse que tinha vontade de se separar. H\u00e1 o problema de alcoolismo. Esses processos no Brasil s\u00e3o muito longos. Em S\u00e3o Paulo \u00e9 comum a separa\u00e7\u00e3o; no sert\u00e3o \u00e9 incomum. A fam\u00edlia em muitos lugares \u00e9 ampliada, com sogra, m\u00e3e, cunhado vivendo muito pr\u00f3ximos. Essa realidade n\u00e3o se desfaz.<\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1 ind\u00edcios de mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nInd\u00edcios, sim. Certamente elas est\u00e3o falando mais nesse assunto. Em 2006, n\u00e3o queriam falar de sentimentos privados. Em 2011, num povoado no sert\u00e3o de Alagoas, me disseram que tinha havido cinco casos de separa\u00e7\u00e3o. Perguntei as raz\u00f5es. Uma me disse: &#8216;Aquela se apaixonou pelo marido da vizinha&#8217;. Perguntei para outra. Ela disse: &#8216;Pensando bem, acho que a bolsa nos d\u00e1 mais coragem&#8217;. Disso da\u00ed deduzir que h\u00e1 um movimento feminista, meu deus do c\u00e9u, \u00e9 quase cruel. N\u00e3o sei se d\u00e1 para fazer essa rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o autom\u00e1tica do Bolsa com a transforma\u00e7\u00e3o delas em mulheres mais independentes. Certamente s\u00e3o mais independentes, como qualquer pessoa que n\u00e3o tinha nada e passa a ter uma renda. Um homem tamb\u00e9m. Mas h\u00e1 censuras internas, tem a religi\u00e3o. As coisas s\u00e3o muito mais espessas do que a gente imagina.<\/p>\n<p><strong>O machismo \u00e9 muito forte?<\/strong><br \/>\nSim. E tamb\u00e9m dentro delas. Se o machismo \u00e9 muito percebido em S\u00e3o Paulo, imagina quando no chamado Brasil profundo. L\u00e1, os padr\u00f5es familiares s\u00e3o muito r\u00edgidos. \u00c9 comum se ouvir que a mulher saiu da escola porque o pai disse que ela n\u00e3o precisava aprender. Elas se casam muito cedo. Agora, como prev\u00ea a sociologia do dinheiro, elas est\u00e3o muito contentes pela regularidade, pela estabilidade, pelo fato de poderem planejar minimamente a vida. Mas eu n\u00e3o avan\u00e7aria numa hip\u00f3tese de revolu\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>O Bolsa Fam\u00edlia mexeu com o coronelismo?<\/strong><br \/>\nSim, enfraqueceu o coronelismo. O dinheiro vem no nome dela, com uma senha dela e \u00e9 ela que vai ao banco; n\u00e3o tem que pedir para ningu\u00e9m. \u00c9 muito diferente se o governo entregasse o dinheiro ao prefeito. Num programa que envolve 54 milh\u00f5es de pessoas, alguma coisa de vez em quando [acontece]. Mas a fraude \u00e9 quase zero. O cadastro \u00fanico \u00e9 muito bem feito. Foi uma a\u00e7\u00e3o de Estado que enfraqueceu o coronelismo. Elas aprenderam a usar o 0800 e v\u00e3o para o telefone p\u00fablico ligar para reclamar. Essa ideia de que \u00e9 uma massa passiva de imbecis que n\u00e3o reagem \u00e9 preconceito puro.<\/p>\n<p><strong>E a quest\u00e3o eleitoral?<\/strong><br \/>\nO coronel perdeu peso porque ela adquiriu uma liberdade que n\u00e3o tinha. N\u00e3o precisa ir ao prefeito. Pode pedir uma rua melhor, mas n\u00e3o comida, que era por ai que o coronelismo funcionava. H\u00e1 res\u00edduos culturais. Ela pode votar no prefeito da fam\u00edlia tal, mas para presidente da Rep\u00fablica, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Esses votos s\u00e3o do Lula?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o. At\u00e9 2011, quando terminei a pesquisa, eram. Quando me perguntam por que Lula tem essa for\u00e7a, respondo: nunca paramos para estudar o peso da fala testemunhal. Todos sabem que ele passou fome, que \u00e9 um homem do povo e que sabe o que \u00e9 pobreza. A figura dele \u00e9 muito forte. O lado ruim \u00e9 que seja muito personalizado. Mas, tamb\u00e9m, existe uma identidade partid\u00e1ria, uma capilaridade do PT.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um argumento que diz que o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 como uma droga que torna o lulismo imbat\u00edvel nas urnas. O que a sra. acha?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 preconceito. A elite brasileira ignora o seu pa\u00eds e vai ficando dura, insens\u00edvel. Sente aquele povo como sendo uma sub-humanidade. Imaginam que essas pessoas s\u00e3o idiotas. Por R$ 5 por m\u00eas eles compram uma parab\u00f3lica usada. Cheguei uma vez numa casa e eles estavam vendo TV Senado. Perguntei o motivo. A resposta: &#8216;A gente gosta porque tem alguma coisa para aprender&#8217;.<\/p>\n<p><strong>No livro a sra. cita muitos casos de mulheres que fizeram laqueadura. Como \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\nO SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade) est\u00e1 fazendo a pedido delas. \u00c9 o sonho maior. Ali\u00e1s, outro preconceito \u00e9 dizer que elas v\u00e3o se encher de filhos para aumentar o Bolsa Fam\u00edlia. \u00c9 supor que sejam imbecis. O grande sonho \u00e9 tomar a p\u00edlula ou fazer laqueadura.<\/p>\n<p><strong>A sra. afirma que \u00e9 preconceito dizer que as pessoas v\u00e3o para o Bolsa Fam\u00edlia para n\u00e3o trabalhar. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nNessas regi\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 emprego. Eles s\u00e3o chamados ocasionalmente para, por exemplo, colher feij\u00e3o. \u00c9 um trabalho sem nenhum direito e ganham menos que no Bolsa Fam\u00edlia. N\u00e3o h\u00e1 f\u00e1bricas; s\u00f3 se v\u00ea terra cercada, com muitos eucaliptos. Os homens do Vale do Jequitinhonha v\u00eam trabalhar aqui por sal\u00e1rios aviltantes. Um fazendeiro disse para o meu marido que n\u00e3o conseguia mais homens para trabalhar por causa do Bolsa Fam\u00edlia. Mas ele pagava R$ 20 por semana! O cara quer escravo. Paga uma mis\u00e9ria por um trabalho duro de 12, 16 horas, n\u00e3o assina carteira, \u00e9 autorit\u00e1rio, e acha que as pessoas t\u00eam que se submeter a isso. E dizem que receber dinheiro do Estado \u00e9 uma vergonha.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 vontade de deixar o Bolsa Fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\nElas gostariam de ter emprego, sal\u00e1rio, carteira assinada, f\u00e9rias, direitos. H\u00e1 tamb\u00e9m uma press\u00e3o social. Ouvem dizer que est\u00e3o acomodadas. Uma pesquisa feita em Itabora\u00ed, no Rio de Janeiro, diz que l\u00e1 elas t\u00eam vergonha de ter o cart\u00e3o. S\u00e3o vistas como pobres coitadas que dependem do governo para viver, que s\u00e3o incapazes, vagabundas. Como em &#8220;Ral\u00e9&#8221;, de M\u00e1ximo Gorki, os pobres repetem a ideologia da elite. A mis\u00e9ria \u00e9 muito dura.<\/p>\n<p><strong>A sra. escreve que o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 o inicio da supera\u00e7\u00e3o da cultura de resigna\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1?<\/strong><br \/>\nA cultura da resigna\u00e7\u00e3o foi muito estudada e \u00e9 tema da literatura: Graciliano Ramos, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Jos\u00e9 Lins do Rego. Ela tem componente religioso: &#8216;Deus quis assim&#8217;. E mescla elementos culturais: a espera da chuva, as promessas. Essa cultura da resigna\u00e7\u00e3o foi rompida pelo Bolsa Fam\u00edlia: a vida pode ser diferente, n\u00e3o \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o. \u00c9 a hip\u00f3tese que eu levanto. Aparece uma coisa nova: \u00e9 poss\u00edvel e \u00e9 bom ter uma renda regular. \u00c9 poss\u00edvel ter outra vida, n\u00e3o preciso ver meus filhos morrerem de fome, como minha m\u00e3e e minha v\u00f3 viam. Esse sentimento de que o Brasil est\u00e1 vivendo uma coisa nova \u00e9 muito real. Hoje se encontram negras m\u00e9dicas, dentistas, por causa do ProUni (Universidade para Todos). Depois de dez anos, o Bolsa Fam\u00edlia tem mostrado que \u00e9 poss\u00edvel melhorar de vida, aprender coisas novas. N\u00e3o tem mais o &#8216;Fabiano&#8217; [personagem de &#8220;Vidas Secas&#8221;], a vida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o seca mais.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compartilho com todos a entrevista que a soci\u00f3loga Walquiria Le\u00e3o Rego sobre o Bolsa Fam\u00edlia, Programa que implantamos em 2003 no governo do ex-presidente Lula. 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