{"id":940,"date":"2014-08-25T16:05:43","date_gmt":"2014-08-25T19:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=940"},"modified":"2022-11-03T10:57:15","modified_gmt":"2022-11-03T13:57:15","slug":"os-mais-pobres-entre-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/os-mais-pobres-entre-os-pobres\/","title":{"rendered":"Os mais pobres entre os pobres"},"content":{"rendered":"<p>A EXCLUS\u00c3O assume muitas formas e se exp\u00f5e em muitos lugares. Mas, aumentando a carga dram\u00e1tica da situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o raro esse problema passa despercebido aos olhos de uma parcela da sociedade at\u00e9 que se torne uma esp\u00e9cie de &#8220;inc\u00f4modo&#8221;. Isso aconteceu, por longos per\u00edodos de pol\u00edticas excludentes da hist\u00f3ria brasileira, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma substancial popula\u00e7\u00e3o com trajet\u00f3ria de rua nos grandes centros urbanos.<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas a quem n\u00e3o resta nada e que buscam em pra\u00e7as, ruas e avenidas as mais variadas formas de sobreviv\u00eancia, dependendo da vontade alheia e, muitos, ainda convivendo com graves problemas de alcoolismo, sofrimento mental, viol\u00eancia. Por muito tempo foram tratados como invis\u00edveis. \u00c0 medida que o contingente de pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o tomou volume, a sociedade passou a clamar por uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, a rea\u00e7\u00e3o mais conservadora e descompromissada foi a de &#8220;jogar&#8221; o problema para frente, resultando em atitudes higienistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Infelizmente vamos encontrar resqu\u00edcios dessa pr\u00e1tica vergonhosa. Mas houve, sobretudo a partir do final dos anos 1980 e in\u00edcio dos anos 1990, boas experi\u00eancias em prefeituras durante<\/p>\n<p>administra\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis \u00e0 quest\u00e3o social e que imprimiram novas perspectivas ao assunto.<\/p>\n<p>N\u00f3s mesmos tivemos oportunidade de vivenciar isso em Belo Horizonte, quando assumimos a prefeitura e iniciamos, com a Pastoral de Rua, um trabalho com os catadores de papel que resultou na cria\u00e7\u00e3o da Asmare (Associa\u00e7\u00e3o dos Catadores de Papel, Papel\u00e3o e Material Reaproveit\u00e1vel), que hoje \u00e9 uma refer\u00eancia nacional e reconhecida internacionalmente. Antes, esses trabalhadores enfrentavam todo tipo de desassossego, incluindo inc\u00eandios criminosos a galp\u00f5es em que o material era estocado e muitos deles dormiam. Hoje, nenhum trabalhador ligado \u00e0 Asmare vive na rua. Todos os filhos estudam. Eles conquistaram cidadania e lutam com propriedade por seus direitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos permitir que os mais pobres entre os pobres sejam ainda mais humilhados. A rua \u00e9 um espa\u00e7o p\u00fablico e deve ser valorizado como tal. \u00c9 um espa\u00e7o de todos, local de encontro, do exerc\u00edcio da cidadania, do conv\u00edvio pessoal de pobres e ricos. Retirar as pessoas da rua significa oferecer a cada uma delas alternativas de vida, oportunidades de trabalho, de moradia, condi\u00e7\u00f5es de formar e manter estruturada uma fam\u00edlia. \u00c9 inadmiss\u00edvel expuls\u00e1-las para outros lugares de nenhumas esperan\u00e7as e longe dos olhos de pessoas insens\u00edveis ao sofrimento de seus semelhantes. \u00c9 um trabalho que implica grandes desafios: resgatar a auto-estima e a dignidade de cada pessoa.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 das grandes cidades, mas pede uma solu\u00e7\u00e3o nacional na perspectiva de integra\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para atingir o problema como um todo. No governo federal, estamos envolvidos na formula\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica nacional para esse segmento, sempre na linha de pol\u00edticas p\u00fablicas com car\u00e1ter republicano, em parceria com os governos estaduais e municipais e buscando a participa\u00e7\u00e3o de entidades da sociedade. J\u00e1 realizamos, por exemplo, conv\u00eanios com a C\u00e1ritas e com a Organiza\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio Fraterno (OAF).<\/p>\n<p>Para combater a falta de informa\u00e7\u00f5es sobre quem \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o de rua, um dos entraves \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um pol\u00edtica nacional, vamos realizar em outubro (de 2007) uma contagem das popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de rua de 60 cidades com mais de 300 mil habitantes. O objetivo \u00e9 formular, a partir do estudo, pol\u00edticas nacionalmente articuladas para esse p\u00fablico, construindo iniciativas que contribuam para a inclus\u00e3o dessas pessoas. \u00c9 a primeira vez que o governo federal realiza esse tipo de levantamento que, at\u00e9 ent\u00e3o, foi feito, por iniciativa de governos municipais em Belo Horizonte, no Recife e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Que ao menos os mais ricos saibam que os pobres est\u00e3o \u00e0 sua porta e esperam os sobejos dos festins&#8221;, conclama o papa Paulo 6\u00ba na enc\u00edclica &#8220;Populorum Progressio&#8221;, sobre o desenvolvimento dos povos, escrita em 1967, apresentando a quest\u00e3o social ao mundo a partir da constata\u00e7\u00e3o do problema da desigualdade:<\/p>\n<p>&#8220;Os povos da fome se dirigem hoje, de modo dram\u00e1tico, aos povos da opul\u00eancia&#8221;. Para alcan\u00e7ar o ideal de desenvolvimento integral e integrado, precisamos ter os olhos atentos a tantas faces da exclus\u00e3o, sobretudo aos que, dentre os que mais precisam, s\u00e3o os mais pobres entre os pobres. Resgatando os ensinamentos do padre Lebret, &#8220;o que conta para n\u00f3s \u00e9 o homem, cada homem, cada grupo de homens, at\u00e9 chegar \u00e0 humanidade inteira&#8221;. Sempre na linha da op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres.<\/p>\n<p>(Patrus Ananias &#8211; 19\/08\/2007 \u2013 Tend\u00eancias\/Debates &#8211; Folha de S.Paulo)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A EXCLUS\u00c3O assume muitas formas e se exp\u00f5e em muitos lugares. Mas, aumentando a carga dram\u00e1tica da situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o raro esse problema passa despercebido aos olhos de uma parcela da sociedade at\u00e9 que se torne uma esp\u00e9cie de &#8220;inc\u00f4modo&#8221;. 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