{"id":804,"date":"2013-09-27T11:18:20","date_gmt":"2013-09-27T14:18:20","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=804"},"modified":"2022-11-03T10:56:13","modified_gmt":"2022-11-03T13:56:13","slug":"jose-mujica-na-onu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/jose-mujica-na-onu\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Mujica na ONU"},"content":{"rendered":"<p>Compartilho aqui o discurso do presidente uruguaio Jos\u00e9 Mujica na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU.<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Fernanda Grabauska<\/strong><\/p>\n<p><em>Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atl\u00e2ntico e do Prata, meu pa\u00eds \u00e9 uma plan\u00edcie suave, temperada, uma hist\u00f3ria de portos, couros, charque, l\u00e3s e carne. Houve d\u00e9cadas p\u00farpuras, de lan\u00e7as e cavalos, at\u00e9 que, por fim, no arrancar do s\u00e9culo 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.<\/em><\/p>\n<p><em>Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma esp\u00e9cie de Su\u00ed\u00e7a. Na realidade, na economia, fomos bastardos do imp\u00e9rio brit\u00e2nico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudan\u00e7as funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Quase 50 anos recordando o Maracan\u00e3, nossa fa\u00e7anha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha hist\u00f3ria pessoal, a de um rapaz \u2014 porque, uma vez, fui um rapaz \u2014 que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libert\u00e1ria e sem classes. Meus erros s\u00e3o, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas h\u00e1 vezes que medito com nostalgia.<\/em><\/p>\n<p><em>Quem tivera a for\u00e7a de quando \u00e9ramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, n\u00e3o olho para tr\u00e1s, porque o hoje real nasceu das cinzas f\u00e9rteis do ontem. Pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o vivo para cobrar contas ou para reverberar mem\u00f3rias.<\/em><\/p>\n<p><em>Me angustia, e como, o amanh\u00e3 que n\u00e3o verei, e pelo qual me comprometo. Sim, \u00e9 poss\u00edvel um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milh\u00f5es de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depress\u00f5es da Am\u00e9rica Latina p\u00e1tria de todos que est\u00e1 se formando.<\/em><\/p>\n<p><em>Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios in\u00fateis a este jacar\u00e9 sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequ\u00eancias da vigil\u00e2ncia eletr\u00f4nica, que n\u00e3o faz outra coisa que n\u00e3o despertar desconfian\u00e7a. Desconfian\u00e7a que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca d\u00edvida social, com a necessidade de defender a Amaz\u00f4nia, os mares, nossos grandes rios na Am\u00e9rica.<\/em><\/p>\n<p><em>Carrego o dever de lutar por p\u00e1tria para todos.<\/em><\/p>\n<p><em>Para que a Col\u00f4mbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por toler\u00e2ncia, a toler\u00e2ncia \u00e9 necess\u00e1ria para com aqueles que s\u00e3o diferentes, e com os que temos difer\u00eancias e discrep\u00e2ncias. N\u00e3o se precisa de toler\u00e2ncia com aqueles com quem estamos de acordo.<\/em><\/p>\n<p><em>A toler\u00e2ncia \u00e9 o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.<\/em><\/p>\n<p><em>O combate \u00e0 economia suja, ao narcotr\u00e1fico, ao roubo, \u00e0 fraude e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, pragas contempor\u00e2neas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a pol\u00edtica, os h\u00e1bitos, a vida e at\u00e9 nos financia em parcelas e cart\u00f5es a apar\u00eancia de felicidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando n\u00e3o podemos, nos enchemos de frustra\u00e7\u00e3o, pobreza e at\u00e9 autoexclus\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>O certo, hoje, \u00e9 que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ci\u00eancia de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano m\u00e9dio, seriam imprescind\u00edveis tr\u00eas planetas para poder viver.<\/em><\/p>\n<p><em>Nossa civiliza\u00e7\u00e3o montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu \u00e0 vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa \u00e9poca, sempre dirigida pela acumula\u00e7\u00e3o e pelo mercado.<\/em><\/p>\n<p><em>Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civiliza\u00e7\u00e3o contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.<\/em><\/p>\n<p><em>O pior: civiliza\u00e7\u00e3o contra a liberdade que sup\u00f5e ter tempo para viver as rela\u00e7\u00f5es humanas, as \u00fanicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n<p><em>Civiliza\u00e7\u00e3o contra tempo livre que n\u00e3o \u00e9 pago, que n\u00e3o se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cen\u00e1rio da natureza.<\/em><\/p>\n<p><em>Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas an\u00f4nimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a ins\u00f4nia com comprimidos, a solid\u00e3o com eletr\u00f4nicos, porque somos felizes longe da conviv\u00eancia humana.<\/em><\/p>\n<p><em>Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>A pol\u00edtica, eterna m\u00e3e do acontecer humano, ficou limitada \u00e0 economia e ao mercado. De salto em salto, a pol\u00edtica n\u00e3o pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entret\u00e9m, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que \u00e9 inegoci\u00e1vel. H\u00e1 marketing para tudo, para os cemit\u00e9rios, os servi\u00e7os f\u00fanebres, as maternidades, para pais, para m\u00e3es, passando pelas secret\u00e1rias, pelos autom\u00f3veis e pelas f\u00e9rias. Tudo, tudo \u00e9 neg\u00f3cio.<\/em><\/p>\n<p><em>Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crian\u00e7as, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um territ\u00f3rio assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomin\u00e1veis que, por vezes, conduzem a frustra\u00e7\u00f5es e mais.<\/em><\/p>\n<p><em>O homenzinho m\u00e9dio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o t\u00e9dio rotineiro dos escrit\u00f3rios, \u00e0s vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as f\u00e9rias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, at\u00e9 que, um dia, o cora\u00e7\u00e3o para, e adeus. Haver\u00e1 outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumula\u00e7\u00e3o. A crise \u00e9 a impot\u00eancia, a impot\u00eancia da pol\u00edtica, incapaz de entender que a humanidade n\u00e3o escapa nem escapar\u00e1 do sentimento de na\u00e7\u00e3o. Sentimento que est\u00e1 quase incrustado em nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico.<\/em><\/p>\n<p><em>Hoje \u00e9 tempo de come\u00e7ar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada n\u00e3o tem mais condu\u00e7\u00e3o que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continu\u00edsta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde vis\u00e3o, \u00e9 o todo.<\/em><\/p>\n<p><em>Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, est\u00e1 meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, s\u00e3o o v\u00e9rtice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avan\u00e7os da ci\u00eancia, que abunda. Mas n\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de defini\u00e7\u00f5es, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela \u00e1gua e contra os desertos.<\/em><\/p>\n<p><em>Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais s\u00e3o os limites de cada grande quest\u00e3o humana. Seria imperioso conseguir consenso planet\u00e1rio para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especula\u00e7\u00e3o. Mobilizar as grandes economias n\u00e3o para criar descart\u00e1veis com obsolesc\u00eancia calculada, mas bens \u00fateis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens \u00fateis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rent\u00e1vel que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo \u00fatil, de escala planet\u00e1ria, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.<\/em><\/p>\n<p><em>Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam f\u00f3rums e confer\u00eancias, que servem muito \u00e0s cadeias hoteleiras e \u00e0s companhias a\u00e9reas e, no melhor dos casos, n\u00e3o re\u00fane ningu\u00e9m e transforma em decis\u00f5es&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ci\u00eancia, essa ci\u00eancia que se empenha pela humanidade n\u00e3o para enriquecer; com eles, com os homens de ci\u00eancia da m\u00e3o, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta pol\u00edtica entrela\u00e7ada com a sabedoria cient\u00edfica, ali est\u00e1 a fonte. Essa ci\u00eancia que n\u00e3o apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que n\u00e3o escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que n\u00e3o entendemos? Creio que se deve convocar a intelig\u00eancia ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que n\u00e3o posso desenvolver nos parecem imposs\u00edveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, n\u00e3o a acumula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Obviamente, n\u00e3o somos t\u00e3o iludidos, nada disso acontecer\u00e1, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrif\u00edcios in\u00fateis daqui para diante, muitos remendos de consci\u00eancia sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo \u00e9 incapaz de criar regras planet\u00e1rias para a globaliza\u00e7\u00e3o e isso \u00e9 pela enfraquecimento da alta pol\u00edtica, isso que se ocupa de todo. Por \u00faltimo, vamos assistir ao ref\u00fagio de acordos mais ou menos &#8220;reclam\u00e1veis&#8221;, que v\u00e3o plantear um com\u00e9rcio interno livre, mas que, no fundo, terminar\u00e3o construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regi\u00f5es do planeta. A sua vez, crescer\u00e3o ramos industriais importantes e servi\u00e7os, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuar\u00e1 a parecer que a acumula\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, para a alegria do sistema financeiro.<\/em><\/p>\n<p><em>Continuar\u00e3o as guerras e, portanto, os fanatismos, at\u00e9 que, talvez, a mesma natureza fa\u00e7a um chamado \u00e0 ordem e torne invi\u00e1veis nossas civiliza\u00e7\u00f5es. Talvez nossa vis\u00e3o seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura \u00fanica, a \u00fanica que h\u00e1 acima da terra capaz de ir contra sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecol\u00f3gica do planeta de consequ\u00eancia do triunfo avassalador da ambi\u00e7\u00e3o humana. Esse \u00e9 nosso triunfo e tamb\u00e9m nossa derrota, porque temos impot\u00eancia pol\u00edtica de nos enquadrarmos em uma nova \u00e9poca. E temos contribu\u00eddo para sua constru\u00e7\u00e3o sem nos dar conta.<\/em><\/p>\n<p><em>Por que digo isto? S\u00e3o dados, nada mais. O certo \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no \u00faltimo s\u00e9culo. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o com\u00e9rcio mundial duplica. Poder\u00edamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globaliza\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 acontecendo conosco? Entramos em outra \u00e9poca aceleradamente, mas com pol\u00edticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumula\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as que nem sequer podemos registrar. N\u00e3o podemos manejar a globaliza\u00e7\u00e3o porque nosso pensamento n\u00e3o \u00e9 global. N\u00e3o sabemos se \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o cultural ou se estamos chegando a nossos limites biol\u00f3gicos.<\/em><\/p>\n<p><em>Nossa \u00e9poca \u00e9 portentosamente revolucion\u00e1ria como n\u00e3o conheceu a hist\u00f3ria da humanidade. Mas n\u00e3o tem condu\u00e7\u00e3o consciente, ou ao menos condu\u00e7\u00e3o simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudan\u00e7as que se acumularam.<\/em><\/p>\n<p><em>A cobi\u00e7a, t\u00e3o negativa e t\u00e3o motor da hist\u00f3ria, essa que impulsionou o progresso material t\u00e9cnico e cient\u00edfico, que fez o que \u00e9 nossa \u00e9poca e nosso tempo e um fenomenal avan\u00e7o em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobi\u00e7a que nos impulsionou a domesticar a ci\u00eancia e transform\u00e1-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma hist\u00f3ria que n\u00e3o conhecemos, a uma \u00e9poca sem hist\u00f3ria, e estamos ficando sem olhos nem intelig\u00eancia coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.<\/em><\/p>\n<p><em>Porque se h\u00e1 uma caracter\u00edstica deste bichinho humano \u00e9 a de que \u00e9 um conquistador antropol\u00f3gico.<\/em><\/p>\n<p><em>Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas \u00e9 imposs\u00edvel para n\u00f3s coletivizar decis\u00f5es globais por esse todo. A cobi\u00e7a individual triunfou grandemente sobre a cobi\u00e7a superior da esp\u00e9cie. Aclaremos: o que \u00e9 &#8220;tudo&#8221;, essa palavra simples, menos opin\u00e1vel e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as rep\u00fablicas que nasceram para afirmas que os homens s\u00e3o iguais, que ningu\u00e9m \u00e9 mais que ningu\u00e9m, que os governos deveriam representar o bem comum, a justi\u00e7a e a igualdade. Muitas vezes, as rep\u00fablicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o foram as rep\u00fablicas criadas para vegetar, mas ao contr\u00e1rio, para serem um grito na hist\u00f3ria, para fazer funcionais as vidas dos pr\u00f3prios povos e, por tanto, as rep\u00fablicas que devem \u00e0s maiorias e devem lutar pela promo\u00e7\u00e3o das maiorias.<\/em><\/p>\n<p><em>Seja o que for, por reminisc\u00eancias feudais que est\u00e3o em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as rep\u00fablicas frequentemente em suas dire\u00e7\u00f5es adotam um viver di\u00e1rio que exclui, que se dist\u00e2ncia do homem da rua.<\/em><\/p>\n<p><em>Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta pol\u00edtica na vida das rep\u00fablicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.<\/em><\/p>\n<p><em>A verdade \u00e9 que cultivamos arca\u00edsmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferencia\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas que, no fundo, amassam o que t\u00eam de melhor as rep\u00fablicas: que ningu\u00e9m \u00e9 mais que ningu\u00e9m. O jogo desse e de outros fatores nos ret\u00e9m na pr\u00e9-hist\u00f3ria. E, hoje, \u00e9 imposs\u00edvel renunciar \u00e0 guerra quando a pol\u00edtica fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.<\/em><\/p>\n<p><em>Ou\u00e7am bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milh\u00f5es em a\u00e7\u00f5es militares nesta terra. Dois milh\u00f5es de d\u00f3lares por minuto em intelig\u00eancia militar!! Em investiga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, de todas as enfermidades que avan\u00e7aram enormemente, cuja cura d\u00e1 \u00e0s pessoas uns anos a mais de vida, a investiga\u00e7\u00e3o cobre apenas a quinta parte da investiga\u00e7\u00e3o militar.<\/em><\/p>\n<p><em>Este processo, do qual n\u00e3o podemos sair, \u00e9 cego. Assegura \u00f3dio e fanatismo, desconfian\u00e7a, fonte de novas guerras e, isso tamb\u00e9m, esbanjamento de fortunas. Eu sei que \u00e9 muito f\u00e1cil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inoc\u00eancia neste mundo plantear que h\u00e1 recursos para economizar e gastar em outras coisas \u00fateis. Isso seria poss\u00edvel, novamente, se f\u00f4ssemos capazes de exercitar acordos mundiais e preven\u00e7\u00f5es mundiais de pol\u00edticas planet\u00e1rias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que n\u00e3o temos. A\u00ed haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a exist\u00eancia dessas garantias planet\u00e1rias? Ent\u00e3o cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque n\u00e3o podemos raciocinar como esp\u00e9cie, apenas como indiv\u00edduos.<\/em><\/p>\n<p><em>As institui\u00e7\u00f5es mundiais, particularmente hoje, vegetam \u00e0 sombra consentida das dissid\u00eancias das grandes na\u00e7\u00f5es que, obviamente, querem reter sua cota de poder.<\/em><\/p>\n<p><em>Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperan\u00e7a e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planet\u00e1rio porque n\u00e3o somos iguais. N\u00e3o podemos ser iguais nesse mundo onde h\u00e1 mais fortes e mais fracos. Portanto, \u00e9 uma democracia ferida e est\u00e1 cerceando a hist\u00f3ria de um poss\u00edvel acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, ent\u00e3o, remendamos doen\u00e7as ali onde h\u00e1 eclos\u00e3o, tudo como agrada a algumas das grandes pot\u00eancias. Os demais olham de longe. N\u00e3o existimos.<\/em><\/p>\n<p><em>Amigos, creio que \u00e9 muito dif\u00edcil inventar uma for\u00e7a pior que nacionalismo chovinista das grandes pot\u00eancias. A for\u00e7a \u00e9 que liberta os fracos. O nacionalismo, t\u00e3o pai dos processos de descoloniza\u00e7\u00e3o, formid\u00e1vel para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas m\u00e3os dos fortes e, nos \u00faltimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.<\/em><\/p>\n<p><em>A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno pa\u00eds tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em miss\u00f5es de paz em todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decis\u00f5es, n\u00e3o entramos nem para servir o caf\u00e9. No mais profundo de nosso cora\u00e7\u00e3o, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pr\u00e9-hist\u00f3ria. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, est\u00e1 na pr\u00e9-hist\u00f3ria, apesar dos muitos artefatos que possa construir.<\/em><\/p>\n<p><em>At\u00e9 que o homem n\u00e3o saia dessa pr\u00e9-hist\u00f3ria e arquive a guerra como recurso quando a pol\u00edtica fracassa, essa \u00e9 a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solid\u00e3o da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que est\u00e3o no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa hist\u00f3ria e superar, passo a passo, as amea\u00e7as \u00e0 vida. A esp\u00e9cie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabe\u00e7as pol\u00edticas que acudam ao caminho da ci\u00eancia, e n\u00e3o apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.<\/em><\/p>\n<p><em>Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo n\u00e3o s\u00e3o da \u00c1frica ou da Am\u00e9rica Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com dec\u00eancia de maneira aut\u00f4noma. Os recursos necess\u00e1rios existem, est\u00e3o neste depredador esbanjamento de nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 poucos dias, fizeram na Calif\u00f3rnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma\u00a0l\u00e2mpada el\u00e9trica que est\u00e1\u00a0acesa h\u00e1 cem anos. Cem anos que est\u00e1 acesa, amigo! Quantos milh\u00f5es de d\u00f3lares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas esta globaliza\u00e7\u00e3o de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudan\u00e7a cultural brutal. \u00c9 o que nos requer a hist\u00f3ria. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se n\u00e3o houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civiliza\u00e7\u00e3o, deixam que ela nos governe. H\u00e1 mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Imposs\u00edvel aplic\u00e1-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei l\u00e1 quantas coisas mais. Mas isso \u00e9 paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ci\u00eancia, o homem, passo a passo, \u00e9 capaz de transformar o deserto em verde.<\/em><\/p>\n<p><em>O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na \u00e1gua salgada. A for\u00e7a da humanidade se concentra no essencial. \u00c9 incomensur\u00e1vel. Ali est\u00e3o as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotoss\u00edntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para us\u00e1-la bem. \u00c9 poss\u00edvel arrancar tranquilamente toda a indig\u00eancia do planeta. \u00c9 poss\u00edvel criar estabilidade e ser\u00e1 poss\u00edvel para as gera\u00e7\u00f5es vindouras, se conseguirem raciocinar como esp\u00e9cie e n\u00e3o s\u00f3 como indiv\u00edduos, levar a vida \u00e0 gal\u00e1xia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa gen\u00e9tica.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, para que todos esses sonhos sejam poss\u00edveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque n\u00e3o somos capazes de estar \u00e0 altura da civiliza\u00e7\u00e3o em que fomos desenvolvendo.<\/em><\/p>\n<p><em>Este \u00e9 nosso dilema. N\u00e3o nos entretenhamos apenas remendando consequ\u00eancias. Pensemos na causa profundas, na civiliza\u00e7\u00e3o do esbanjamento, na civiliza\u00e7\u00e3o do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando quest\u00f5es in\u00fateis. Pensem que a vida humana \u00e9 um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biol\u00f3gico, acima de todas as coisas, \u00e9 respeitar a vida e impulsion\u00e1-la, cuid\u00e1-la, procri\u00e1-la e entender que a esp\u00e9cie \u00e9 nosso &#8220;n\u00f3s&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Obrigado.<\/em><\/p>\n<address><span style=\"color: #808080;\"><em>\u00a0fonte: site <span style=\"text-decoration: underline;\"><a title=\"Zero Hora\" href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/rs\/mundo\/noticia\/2013\/09\/leia-a-integra-do-discurso-de-jose-mujica-na-onu-4281650.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"color: #808080; text-decoration: underline;\">Zero Hora<\/span><\/a><\/span><\/em><\/span><\/address>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compartilho aqui o discurso do presidente uruguaio Jos\u00e9 Mujica na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU. Tradu\u00e7\u00e3o: Fernanda Grabauska Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atl\u00e2ntico e do Prata, meu pa\u00eds \u00e9 uma plan\u00edcie suave, temperada, uma hist\u00f3ria de portos, couros, charque, l\u00e3s e carne. 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