{"id":749,"date":"2013-08-13T16:16:45","date_gmt":"2013-08-13T19:16:45","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=749"},"modified":"2022-11-03T10:57:58","modified_gmt":"2022-11-03T13:57:58","slug":"reforma-urbana-ja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/reforma-urbana-ja\/","title":{"rendered":"Reforma urbana j\u00e1!"},"content":{"rendered":"<p>No contexto das grandes manifesta\u00e7\u00f5es que mobilizaram a consci\u00eancia c\u00edvica nacional, emergiu como ponta de lan\u00e7a a quest\u00e3o grav\u00edssima do transporte coletivo nas cidades maiores e regi\u00f5es metropolitanas.<\/p>\n<p>Estar\u00e1 sempre presente na minha mem\u00f3ria e no meu cora\u00e7\u00e3o o depoimento de uma senhora trabalhadora que encontrei na campanha pol\u00edtico-eleitoral de 2012. Residente em Venda Nova, utiliza duas linhas de \u00f4nibus para ir e voltar do trabalho. Disse-me ela que fica, em m\u00e9dia, quatro horas por dia dentro dos \u00f4nibus e nos pontos de espera. Assim como ela, s\u00e3o milhares, milh\u00f5es de pessoas. O tempo despendido, mesmo para os que usam o pr\u00f3prio carro ou andam de taxi, \u00e9 cada vez maior.<\/p>\n<p>O problema do transporte, al\u00e9m de algumas especificidades pr\u00f3prias do setor, como, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico com as empresas concession\u00e1rias, est\u00e1 inserido no desafio maior da mobilidade urbana, que, por sua vez, nos remete ao desafio da reforma urbana.<\/p>\n<p><strong><!--more--><\/strong><\/p>\n<p>O Brasil conseguiu a fa\u00e7anha in\u00e9dita, entre os povos econ\u00f4mica e socialmente mais desenvolvidos, de atravessar os s\u00e9culos XIX e XX, e estamos indo pelo s\u00e9culo XXI adentro, sem realizar a reforma agr\u00e1ria. Enquanto a Lei de Terras nos Estados Unidos \u2013 onde se pratica o capitalismo mais desenfreado! \u2013 estimulava a pequena e m\u00e9dia propriedades, a nossa lei, na mesma \u00e9poca estimulava a concentra\u00e7\u00e3o da terra e penalizava os pequenos posseiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o fizemos a reforma agr\u00e1ria que Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, e Joaquim Nabuco, mais para o final do s\u00e9culo, defenderam, vinculando-a \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<br \/>\nA quest\u00e3o agr\u00e1ria e a quest\u00e3o urbana t\u00eam uma refer\u00eancia comum: o direito de propriedade, que, no Brasil, continua sendo absoluto, intoc\u00e1vel, acima de todos os demais direitos, inclusive, o direito \u00e0 vida. O direito de propriedade e, especialmente, o direito \u00e0 propriedade, constitui uma conquista civilizat\u00f3ria e fator de desenvolvimento dos povos. N\u00e3o se questiona a sua validade e import\u00e2ncia. O que se discute s\u00e3o os limites desse direito, considerando as exig\u00eancias superiores do direito \u00e0 vida, do bem comum, da justi\u00e7a social e do equil\u00edbrio do meio-ambiente.<\/p>\n<p>Estamos diante de um tema que tem profundas ra\u00edzes hist\u00f3ricas: o princ\u00edpio da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade. O equil\u00edbrio entre o direito \u00e0 propriedade e sua fun\u00e7\u00e3o social \u00e9 assunto que vem mobilizando intelig\u00eancias e cora\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. Mas foi, a meu ver, a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que melhor elaborou o tema a partir de uma concep\u00e7\u00e3o religiosa profundamente encarnada na vida: \u201cDeus destinou os bens da terra a todos os homens\u201d (acrescentar\u00edamos hoje tamb\u00e9m \u00e0s mulheres). S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, na Idade M\u00e9dia, aprofundou e ampliou essas reflex\u00f5es \u00e0 luz de outros conceitos como justi\u00e7a e bem comum.<\/p>\n<p>\u00c9 inadmiss\u00edvel hoje, com os grav\u00edssimos problemas que enfrentamos nas cidades, o direito sobre propriedades urbanas para fins meramente especulativos. Os terrenos se valorizam com investimentos p\u00fablicos e os ganhos s\u00e3o totalmente privatizados.<\/p>\n<p>Inadmiss\u00edvel tamb\u00e9m, \u00e0 luz do princ\u00edpio da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade que se estende aos limites \u00e9ticos do lucro, que as empresas de transporte coletivo tenham lucros exorbitantes e n\u00e3o sejam transparentes nas suas contas. Afinal, s\u00e3o concession\u00e1rias agindo em nome do interesse p\u00fablico e do bem comum.<\/p>\n<p>O planejamento e a reforma urbana, o direito \u00e0 moradia digna das fam\u00edlias mais pobres, a melhoria e amplia\u00e7\u00e3o das vias, dos espa\u00e7os e equipamentos p\u00fablicos pressup\u00f5em atos de desapropria\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis privados. \u00c9 preciso distinguir, para efeitos de justa indeniza\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios, entre os bens de uso e renda pessoal ou familiar (a casa em que a pessoa ou a fam\u00edlia mora, um, dois ou tr\u00eas im\u00f3veis alugados e que comp\u00f5em seu or\u00e7amento; o lugar do neg\u00f3cio, seja um ponto comercial, o escrit\u00f3rio, uma micro, pequena ou m\u00e9dia empresa) das propriedades meramente especulativas. Aquelas merecem toda prote\u00e7\u00e3o legal; as propriedades especulativas que n\u00e3o atendem as determina\u00e7\u00f5es dos artigos 5\u00ba, XXIII; 170, III; 182; 184 e 185 da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil, afrontam diretamente o bem comum e como tal devem ser tratadas pela lei \u00e0 luz do interesse p\u00fablico e do bem estar coletivo.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos em sociedades, somos interdependentes. Essa realidade, a vida comunit\u00e1ria, pressup\u00f5e que os leg\u00edtimos direitos individuais se articulem com os igualmente leg\u00edtimos direitos sociais e os emergentes direitos coletivos e difusos ligados \u00e0 quest\u00f5es urban\u00edsticas e ambientais. Se esse equil\u00edbrio, justo e necess\u00e1rio, n\u00e3o for alcan\u00e7ado num espa\u00e7o curto de tempo, as cidades brasileiras v\u00e3o se tornar ca\u00f3ticas, num contexto crescente de viol\u00eancia e desagrega\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o podemos aceitar esse destino. Uma palavra de ordem, que bem cabe no momento, deve ser: reforma urbana j\u00e1! Comecemos por aplicar a Constitui\u00e7\u00e3o e o Estatuto das Cidades. No caso de Belo Horizonte temos a Lei Org\u00e2nica que considerou com aten\u00e7\u00e3o e propriedade o desafio urbano, incluindo os direitos ao transporte coletivo, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e abastecimento alimentar. \u00c9 conferir os artigos 184 a 211 da lei maior da nossa Capital.<\/p>\n<p>Outras medidas e realiza\u00e7\u00f5es ser\u00e3o necess\u00e1rias, sempre acolhendo e ampliando o princ\u00edpio da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e do lucro e o primado do direito \u00e0 vida e do bem comum.<\/p>\n<p>A partir do governo do Presidente Lula foram criados alguns minist\u00e9rios que mudaram o Brasil como o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome e o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. A cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio das Cidades, na mesma linha, foi uma not\u00e1vel percep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Infelizmente, por raz\u00f5es v\u00e1rias, ele ainda n\u00e3o cumpriu o seu papel. Quem sabe o Minist\u00e9rio das Cidades cumpra, nos pr\u00f3ximos anos, o papel que as novas pol\u00edticas p\u00fablicas sociais \u2013 Assist\u00eancia Social, Renda de Cidadania para as pessoas e fam\u00edlias pobres (Bolsa Fam\u00edlia e Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada) e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional \u2013 cumpriram nos \u00faltimos anos?<\/p>\n<p>O Diret\u00f3rio Nacional do Partido dos Trabalhadores destaca entre as prioridades do momento hist\u00f3rico que vivemos, \u201ca necessidade da reforma urbana, dentro do princ\u00edpio constitucional da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade\u201d. <span class=\"mceWPmore\" style=\"color: #993300&lt;img src=;\" title=\"Mais...\"><a title=\"REUNI\u00c3O DO DIRET\u00d3RIO NACIONAL DO PT\" href=\"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=747\"><span style=\"color: #993300;\">(veja aqui documento na \u00edntegra)<\/span><\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No contexto das grandes manifesta\u00e7\u00f5es que mobilizaram a consci\u00eancia c\u00edvica nacional, emergiu como ponta de lan\u00e7a a quest\u00e3o grav\u00edssima do transporte coletivo nas cidades maiores e regi\u00f5es metropolitanas. 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