{"id":705,"date":"2012-12-21T16:57:28","date_gmt":"2012-12-21T18:57:28","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=705"},"modified":"2022-11-03T10:56:31","modified_gmt":"2022-11-03T13:56:31","slug":"nede-mais-um-adeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/nede-mais-um-adeus\/","title":{"rendered":"Nede, mais um adeus"},"content":{"rendered":"<p>Os nossos caminhos se encontraram, com certeza, nas poucas e aconchegadas ruas da Bocai\u00fava das nossas inf\u00e2ncias. Mas n\u00e3o guardo dele uma lembran\u00e7a mais viva desses tempos. Eu era um pouco mais velho e n\u00e3o fomos colegas no grupo ou no gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>O nosso encontro definitivo deu-se no curso m\u00e9dio, cient\u00edfico, quando formamos uma turma inesquec\u00edvel, a primeira diplomada pela Escola Estadual Professor Gast\u00e3o Vale.<\/p>\n<p>Nede Caldeira Figueiredo foi o grande amigo dessa boa quadra da minha mocidade bocaiuvense. Form\u00e1vamos uma dupla constante, que, com freq\u00fc\u00eancia, se tornava um trio, quando a n\u00f3s se integrava o admir\u00e1vel Eust\u00e1quio de Azevedo Coutinho, o Taquinho, ou Eustaquinho como Nede, afetuosamente, costumava chamar-lhe. Estud\u00e1vamos juntos e ouv\u00edamos m\u00fasica juntos \u2013 o gosto de Nede nunca mudou; permaneceu fiel aos velhos e bons boleros, samba-can\u00e7\u00f5es \u2013 tomamos juntos as primeiras pingas e cervejas, juntos desafinamos nas serenatas que faz\u00edamos para as nossas colegas e outras bonitas mo\u00e7as bocaiuvenses, que essas, gera\u00e7\u00f5es sucessivas, sempre adornaram o cen\u00e1rio da nossa boa e generosa terra.<\/p>\n<p><strong><!--more--><\/strong><\/p>\n<p>Descobrimos um modo de mudar a rotina dos nossos fins de semana. \u00cdamos a cavalo para as ro\u00e7as de nossos familiares. Sa\u00edamos \u00e0s sextas-feiras, depois das aulas, que eram noturnas. Viaj\u00e1vamos noite adentro, tr\u00eas, quatro l\u00e9guas, curtindo a marcha boa dos animais. Nede tinha um cavalo espl\u00eandido e dele se orgulhava. Do mesmo n\u00edvel era Campe\u00e3o, cavalo do meu irm\u00e3o Galdino, que se tornou meu parceiro preferido naquelas andan\u00e7as. Muitas vezes a gente se animava e soltava as r\u00e9deas dos animais fogosos em correrias desembestadas. Certa noite apostamos corrida com um carro. Coisas da mocidade, \u201ctarefa para mais tarde se desmentir.\u201d<\/p>\n<p>A nossa conversa foi sempre franca e respeitosa. Nunca tivemos uma altera\u00e7\u00e3o. Nede era jeitoso, alegre, brincalh\u00e3o, mas atento aos limites da boa prosa e da fraterna conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Tinha uma vertente saudavelmente travessa. Preservou vida afora o esp\u00edrito da inf\u00e2ncia, um jeito menino de ser. Mas era determinado e ousado. Leal aos amigos. Al\u00e9m das brincadeiras, dos coment\u00e1rios atentos e perspicazes e, muitas vezes, fraternalmente ir\u00f4nicos, havia as nuvens bem guardadas de uma tristeza rec\u00f4ndita, o gosto da solid\u00e3o, a escolha seleta dos amigos. Conversava e brincava com muitos, guardava os recantos da amizade e dos segredos para muito poucos. Tive o privil\u00e9gio de estar entre eles.<\/p>\n<p>Terminamos o cient\u00edfico. Viemos para Belo Horizonte em 1972. Os tr\u00eas mosqueteiros. Nede n\u00e3o se adaptou. Parecia um peixe fora d\u2019\u00e1gua, um desterrado. Captei-lhe o olhar entristecido, saudades dos gerais, do sert\u00e3o bocaiuvense, das cavalgadas, do sil\u00eancio murmurante das noites roceiras. Logo retornou \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Passamos a nos encontrar mais esporadicamente. Os nossos caminhos, por um tempo, se distanciaram nas curvas da vida. Mas quando nos encontr\u00e1vamos era sempre a mesma e boa amizade, a alegria nos olhos, a retomada f\u00e1cil de uma conversa que parecia interrompida ontem&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 quase onze anos, janeiro de 2002, foi o encontro que marcou a retomada de nossa grande amizade. Foi na festa de Reis, no Alto Belo, no Pires e Albuquerque do passado, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os de T\u00e9o Azeredo. Vera e eu resolvemos ir. N\u00e3o sab\u00edamos que Nede estava l\u00e1. Pois estava e esticamos conversa noite adentro. Reminisc\u00eancias, atualiza\u00e7\u00f5es sobre filhos. Constantes o bem querer, a confian\u00e7a, o elevado e m\u00fatuo apre\u00e7o. Da\u00ed para c\u00e1 os encontros e conversas se tornaram mais freq\u00fcentes. Guardo, com emo\u00e7\u00e3o, a lembran\u00e7a do dia em que recebi um telefonema dele, em Bras\u00edlia, para falar-me comovido da partida do Reinaldo, o nosso querido e saudoso Toninho de Lia.<\/p>\n<p>Sempre soube que meu amigo, irm\u00e3o Nede era desses que n\u00f3s chamamos afetuosamente \u201cbicho do mato\u201d. Nada afeito \u00e0s liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas e outras formas modernas de conversa\u00e7\u00e3o. Gostava mesmo era da conversa na mesa da cozinha, o fog\u00e3o a lenha cozinhando o frango caipira e outras gostosuras da culin\u00e1ria rural bocaiuvense, a cerveja gelada e a cachacinha honesta aquecendo os cora\u00e7\u00f5es e facilitando a circula\u00e7\u00e3o das palavras e sentimentos. Isso n\u00f3s vivemos com ele nas \u00faltimas viagens a Bocai\u00fava, agora com a presen\u00e7a de outro grande amigo comum, o nosso M\u00e1rio Caldeira Brant, Mir\u00fa.<\/p>\n<p>O Natal em Bocai\u00fava dessa vez ser\u00e1 mais alongado. A ida com calma, dia inteiro, \u00e0 fazenda do Nede estava sendo previamente degustada. Seria mais um cap\u00edtulo dessa amizade que nos acompanha vida afora.<\/p>\n<p>De repente o telefonema estranho de Maria. O acidente na ro\u00e7a fazendo aquilo que tanto gostava, a sua irreprim\u00edvel voca\u00e7\u00e3o de fazendeiro sim, mas, sobretudo, de vaqueiro, de cavaleiro andante, apascentador de rebanhos. Coloquei-me em campo. Conseguimos vaga no Sara Kubitscheck. Tudo daria certo. Assumi comigo mesmo o compromisso de estar com ele, de visit\u00e1-lo muitas vezes e conversarmos muito.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 nublada de uma quarta-feira, que se tornou de cinzas, viajando para o Sul de Minas, a not\u00edcia horr\u00edvel, apunhalante, sem retorno: Nede nos deixara. Um vazio enorme! O mundo encolheu, entristeceu. Est\u00e1 faltando ele, \u201cnaquela mesa est\u00e1 faltando ele\u201d, est\u00e1 faltando Nede, \u201ce a saudade dele est\u00e1 doendo em mim\u201d.<\/p>\n<p>Vamos torn\u00e1-lo presente em nossas mem\u00f3rias e cora\u00e7\u00f5es. Vamos responder, chorando, mas com esperan\u00e7a e for\u00e7a ao chamado, como nas chamadas escolares, que o amigo n\u00e3o pode mais responder. Respondamos por ele, os seus filhos, a sua companheira, os seus irm\u00e3os e familiares, os amigos. Nede Caldeira Figueiredo est\u00e1 presente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os nossos caminhos se encontraram, com certeza, nas poucas e aconchegadas ruas da Bocai\u00fava das nossas inf\u00e2ncias. Mas n\u00e3o guardo dele uma lembran\u00e7a mais viva desses tempos. Eu era um pouco mais velho e n\u00e3o fomos colegas no grupo ou no gin\u00e1sio. 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