{"id":679,"date":"2012-11-30T15:02:33","date_gmt":"2012-11-30T17:02:33","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=679"},"modified":"2022-11-03T10:46:24","modified_gmt":"2022-11-03T13:46:24","slug":"carta-ao-governardor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/carta-ao-governardor\/","title":{"rendered":"Carta ao governardor"},"content":{"rendered":"<p><strong>Do Jornal O Tempo<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\"><a href=\"http:\/\/www.otempo.com.br\/otempo\/colunas\/?IdColunaEdicao=20421\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Segunda carta ao governador Antonio Anastasia<\/strong><\/span><\/a><\/span><br \/>\n<em>Sebasti\u00e3o Nunes<\/em><\/p>\n<div id=\"div_nota-1\">\n<p>Senhor governador: Quanto vale uma vida humana? N\u00e3o digo a sua, que vale muito, nem a minha, quase sem valor devido \u00e0 idade. Perguntinha besta, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Al\u00e9m de besta, de t\u00e3o dif\u00edcil resposta que chega a lembrar a da esfinge, aquela famosa &#8220;decifra-me ou te devoro&#8221;.<\/p>\n<p>No caso, a pergunta era a seguinte: &#8220;Que criatura pela manh\u00e3 tem quatro p\u00e9s, ao meio-dia tem dois, e \u00e0 tarde tr\u00eas?&#8221; Resposta: &#8220;O homem, que engatinha quando beb\u00ea, anda sobre dois p\u00e9s na vida adulta e usa bengala na velhice&#8221;. Quem n\u00e3o acertava a resposta era estrangulado e s\u00f3 \u00c9dipo logrou decifrar o enigma. Mas nosso enigma continua indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Voltemos, pois, \u00e0 pergunta inicial: quanto vale, digamos, a vida de uma crian\u00e7a?<\/p>\n<p>V\u00e1rios dos grandes escritores humanistas (especialmente Dostoievski, Faulkner e Camus) consideravam o sofrimento e a morte das crian\u00e7as a abomina\u00e7\u00e3o suprema e uma das provas da indiferen\u00e7a (ou mesmo da inexist\u00eancia) de Deus.<\/p>\n<p>Para eles, \u00e9 justific\u00e1vel pela biologia a morte de um adulto, que viveu muito, mas n\u00e3o a de uma crian\u00e7a, a pr\u00f3pria inoc\u00eancia. Indo al\u00e9m, responsabilizam pela morte de uma \u00fanica crian\u00e7a o caos do Universo inteiro. Exagero, sem d\u00favida, divaga\u00e7\u00e3o gratuita de humanistas desocupados. E que n\u00e3o conheceram Minas.<\/p>\n<p><strong>TOUROS PREMIADOS<\/strong><br \/>\nPenso em crian\u00e7as suburbanas e faveladas, ou mesmo do interior long\u00ednquo, dessas que brincam de p\u00e9 no ch\u00e3o, \u00e0s vezes por gosto, outras por n\u00e3o terem sand\u00e1lias.<\/p>\n<p>Se o senhor j\u00e1 brincou de p\u00e9 no ch\u00e3o &#8211; n\u00e3o vale a macia areia das praias &#8211; sabe a que me refiro. Pois in\u00fameras pessoas nunca pisaram terra nua, como certos touros que conheci em grandes fazendas paulistas de insemina\u00e7\u00e3o. S\u00e3o animais imensos, valios\u00edssimos, que vivem em instala\u00e7\u00f5es especiais e t\u00eam apenas uma fun\u00e7\u00e3o: fornecer s\u00eamen. Sua ra\u00e7\u00e3o \u00e9 formulada caso a caso e s\u00f3 viajam de avi\u00e3o, sendo o transporte para os aeroportos feito em ve\u00edculos adaptados \u00e0 sua corpul\u00eancia e, \u00e9 claro, a seu espantoso valor.<\/p>\n<p>Quanto vale a vida de uma crian\u00e7a dessas, de p\u00e9 no ch\u00e3o? N\u00e3o tem futuro brilhante, talvez nem mesmo futuro algum. Cresce jogada pelos quintais e monturos, depois vai &#8211; se for &#8211; a uma escola insatisfat\u00f3ria. Mais tarde consegue &#8211; quando consegue &#8211; trabalho pesado de sal\u00e1rio m\u00ednimo, que permite comer miseravelmente, morar miseravelmente, se reproduzir miseravelmente e, afinal, morrer miseravelmente numa enfermaria infecta, superpovoada de infelizes. Se vivem no interior, marcham a p\u00e9 para o trabalho. Se na capital, gastam de tr\u00eas a quatro horas di\u00e1rias dentro de \u00f4nibus lotados, atrasados e fedorentos.<\/p>\n<p>Essa vida, com certeza, vale pouco. Mas n\u00e3o custa lembrar que ela \u00e9 tamb\u00e9m \u00fanica e deveria ser tratada como joia inestim\u00e1vel, embora sua insignific\u00e2ncia a banalize, embora a quantidade com que nascem seus iguais a tornem desprez\u00edvel, apenas mais uma entre tantos milh\u00f5es de condenadas ao fracasso.<\/p>\n<p><strong>CAMINHO SEM VOLTA<\/strong><br \/>\nTenho um amigo, capit\u00e3o da pol\u00edcia militar, atuando em \u00e1reas de risco e especialista em preven\u00e7\u00e3o e combate a drogas, com quem converso frequentemente. Certo dia fiz a ele a seguinte pergunta: &#8220;Qual \u00e9 a idade limite para a recupera\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de risco? A partir de que idade n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel recuper\u00e1-la?&#8221;.<\/p>\n<p>Claro que ele n\u00e3o tem uma resposta pronta. Claro que as vari\u00e1veis s\u00e3o muitas. Claro que existem exce\u00e7\u00f5es. Mas pensou longamente, como se condenasse algu\u00e9m \u00e0 morte, me olhou cuidadosamente, e afinal soltou: &#8220;11 anos&#8221;.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o significa o seguinte: se at\u00e9 11 anos a crian\u00e7a for afastada da \u00e1rea de risco e colocada em condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia no m\u00ednimo razo\u00e1veis, suas chances de recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o grandes. Caso contr\u00e1rio estar\u00e1 perdida &#8211; definitivamente perdida &#8211; para o mundo do tr\u00e1fico, da delinqu\u00eancia, da ignor\u00e2ncia e da crueldade.<\/p>\n<p><strong>SA\u00daDE P\u00daBLICA<\/strong><br \/>\n\u00c9 engra\u00e7ado, senhor governador, mas desconhe\u00e7o o nome de seu secret\u00e1rio da sa\u00fade. Sem d\u00favida seria f\u00e1cil ir ao portal do governo, clicar em secretarias, entrar na da sa\u00fade, e l\u00e1 encontrar o nome e, talvez, a biografia. Mas n\u00e3o farei isso. Comporto-me aqui, como escrevi na primeira carta, como um cidad\u00e3o comum, dotado de conhecimentos comuns. E deles n\u00e3o fazem parte saber o nome do secret\u00e1rio da sa\u00fade de Minas. Nem o do secret\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o, assunto de uma pr\u00f3xima carta.<\/p>\n<p>Dito isto, acredito que esteja ciente de sua recusa em aplicar os 12% exigidos pela Constitui\u00e7\u00e3o na \u00e1rea que administra. Concordar\u00e1 com a recusa? Acreditar\u00e1 que s\u00e3o suficientes os recursos restantes? Ou apenas lavar\u00e1 as m\u00e3os?<\/p>\n<p>Permita-me pedir ao senhor que sugira a ele o seguinte: que algum dia, an\u00f4nimo, v\u00e1 se postar diante de um hospital p\u00fablico e veja, apenas veja, o que acontece por l\u00e1. E sugiro anonimato por temer que, caso apare\u00e7a em carro oficial com motorista, enfermos se enfure\u00e7am e, perdendo o pouco controle que ainda lhes resta, pratiquem algum ato de selvageria. Simples precau\u00e7\u00e3o, senhor governador.<\/p>\n<p>Falar nisso, dia desses presenciei dois casos exemplares. O primeiro, de um jovem de seus 25 anos, daquela cor acobreada de nossos mesti\u00e7os de \u00edndio e negro, sentado desamparado na porta de um laborat\u00f3rio p\u00fablico de radiologia. Quando eu passava, algu\u00e9m se aproximou dele, perguntando: &#8220;Conseguiu?&#8221; E ele, com triste resigna\u00e7\u00e3o: &#8220;Est\u00e1 quebrado. S\u00f3 na Cristiano Machado&#8221;. Ou seja: s\u00f3 alguns quil\u00f4metros al\u00e9m. No outro caso, um adulto mais velho, entre 30 e 35 anos, descia, com as pernas enfaixadas e amparado em muletas, a rua pr\u00f3xima ao hospital, com aquele ar desconsolado dos pobres, para quem Deus sabe o que faz. E claro que sem dinheiro para t\u00e1xi, talvez nem mesmo para o \u00f4nibus distante.<\/p>\n<p><strong>QUE TAL CUMPRIR A LEI?<\/strong><br \/>\nComo afirmei acima, senhor governador, desconhe\u00e7o a extens\u00e3o dos gastos que o senhor deveria fazer &#8211; mas n\u00e3o faz &#8211; com os 12% que a Constitui\u00e7\u00e3o exige &#8211; e o senhor n\u00e3o cumpre &#8211; em recursos do Estado. Nem onde deveria aplic\u00e1-los. Fa\u00e7o-me cego de prop\u00f3sito, j\u00e1 que \u00e9 imposs\u00edvel mergulhar nas finan\u00e7as p\u00fablicas e buscar entend\u00ea-las. Mas n\u00e3o entendo &#8211; e \u00e9 apenas isto &#8211; como n\u00e3o se torna um estadista respeitado apenas cumprindo a lei.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Jornal O Tempo Segunda carta ao governador Antonio Anastasia Sebasti\u00e3o Nunes Senhor governador: Quanto vale uma vida humana? 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