{"id":511,"date":"2012-07-12T19:41:04","date_gmt":"2012-07-12T22:41:04","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=511"},"modified":"2022-11-03T10:46:25","modified_gmt":"2022-11-03T13:46:25","slug":"celio-de-castro-oitenta-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/celio-de-castro-oitenta-anos\/","title":{"rendered":"C\u00e9lio de Castro: oitenta anos&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O texto abaixo \u00e9 o meu depoimento, que integra a colet\u00e2nea do livro Trajet\u00f3rias, em homenagem aos 80 anos do nosso companheiro C\u00e9lio de Castro. O livro foi lan\u00e7ado ontem, em bela cerim\u00f4nia em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria do grande amigo.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?attachment_id=514\" rel=\"attachment wp-att-514\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-514\" title=\"Capa do livro &quot;Doutor C\u00e9lio de Castro - Trajet\u00f3ria&quot;\" src=\"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/02955_72580p3.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"236\" \/><\/a><\/h6>\n<address style=\"text-align: left;\">Capa do livro &#8220;Doutor C\u00e9lio de Castro &#8211; Trajet\u00f3ria&#8221;<\/address>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Patrus Ananias<\/em><\/p>\n<p>C\u00e9lio de Castro tinha muitas paix\u00f5es. A paix\u00e3o pela medicina; a paix\u00e3o pela pol\u00edtica; a paix\u00e3o pela palavra. Tantas mais&#8230; Entre as paix\u00f5es liter\u00e1rias, Guimar\u00e3es Rosa se destacava: deu-me, certa vez, como presente de anivers\u00e1rio, a primeira edi\u00e7\u00e3o de <em>Sagarana<\/em>, com bel\u00edssima dedicat\u00f3ria. Lia e relia <em>Grande Ser\u00e3o: Veredas<\/em> e fic\u00e1vamos horas conversando sobre os caminhos e mist\u00e9rios desta obra prima da literatura brasileira e universal. O saudoso Cezar Campos, grande e inesquec\u00edvel secret\u00e1rio de Sa\u00fade do povo de Belo Horizonte, participou de algumas dessas prosas que iam varando a noite. Falamos, numa dessas conversas roseanas, sobre a <em>Terceira Margem<\/em>, conto antol\u00f3gico de <em>Primeiras Est\u00f3rias<\/em>. C\u00e9lio e Cezar ficaram explorando as implica\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas do belo texto. Quando as for\u00e7as da intoler\u00e2ncia e da repress\u00e3o explodiram o carro de C\u00e9lio \u2013 penso que foi o \u00faltimo que ele teve! \u2013 l\u00e1 estava, v\u00edtima tamb\u00e9m, o livro maior do mineiro de Cordisburgo. Eram amigos insepar\u00e1veis!<\/p>\n<p>C\u00e9lio e eu estivemos juntos em muitas lutas e caminhadas. A luta contra a ditadura; a luta pela liberdade e autonomia dos sindicatos; as lutas pela Anistia, pela Constituinte, pelas Diretas-J\u00e1. Juntos caminhamos pelas ruas e becos de Belo Horizonte na campanha memor\u00e1vel de 1992 e nos governos \u2013 meu e dele, nossos \u2013 que mudaram os rumos da hist\u00f3ria de Belo Horizonte e abriram as portas da cidade para os pobres e exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>De todas essas boas pelejas e andan\u00e7as, restou uma bela amizade. Perguntei-lhe sobre o estadista que mais admirava. Respondeu-me, naquele momento, o nome de Ho Chi Minh. Alguns anos depois, lendo uma biografia do grande l\u00edder vietnamita, compreendi o porqu\u00ea. C\u00e9lio era um socialista com os p\u00e9s, o cora\u00e7\u00e3o e a cabe\u00e7a, corpo inteiro, plantados pelo tempo hist\u00f3rico. N\u00e3o abdicava da responsabilidade de ser um sujeito atuante e transformador de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Outras vezes j\u00e1 falei do testemunho existencial. O grande m\u00e9dico, plantonista durante d\u00e9cadas no Pronto-Socorro, jamais condicionou o atendimento m\u00e9dico, da mais alta qualidade, ao pr\u00e9vio pagamento. Tinha em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro e aos bens materiais uma postura franciscana, gandhiana, hochiminiana. O desapego raiava os limites do desprezo.<\/p>\n<p>Por tudo isso, e muito mais, C\u00e9lio de Castro est\u00e1 vivo. Vivo no cora\u00e7\u00e3o de seus familiares, amigos, pacientes; vivo no cora\u00e7\u00e3o do povo de Belo Horizonte, dos pobres, dos militantes da liberdade e da justi\u00e7a social. Cada um de n\u00f3s vai contando a sua hist\u00f3ria para os nossos filhos, netos, bisnetos&#8230; E assim C\u00e9lio n\u00e3o morre! S\u00f3 morre quem \u00e9 esquecido, quem \u201cpassou pela vida e n\u00e3o viveu\u201d.<\/p>\n<p>Voltemos ao in\u00edcio para fechar o arco da reflex\u00e3o e do sentimento; voltemos a Guimar\u00e3es Rosa para lembrar que \u201ca morte \u00e9 o sobrevir de Deus entornadamente\u201d e perguntarmos e respondermos juntos: \u201co que \u00e9 um pormenor da aus\u00eancia? Faz diferen\u00e7a? Choras o que n\u00e3o devias chorar&#8230; A gente morre \u00e9 para provar que viveu&#8230; As pessoas n\u00e3o morrem, ficam encantadas\u201d. C\u00e9lio viveu e continua encantado no cora\u00e7\u00e3o e na mem\u00f3ria de cada um de n\u00f3s! Sopremos as oitenta velinhas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto abaixo \u00e9 o meu depoimento, que integra a colet\u00e2nea do livro Trajet\u00f3rias, em homenagem aos 80 anos do nosso companheiro C\u00e9lio de Castro. O livro foi lan\u00e7ado ontem, em bela cerim\u00f4nia em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria do grande amigo. 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