{"id":3591,"date":"2019-04-26T13:35:08","date_gmt":"2019-04-26T16:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=3591"},"modified":"2022-11-03T10:56:32","modified_gmt":"2022-11-03T13:56:32","slug":"o-direito-a-vida-o-direito-a-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/o-direito-a-vida-o-direito-a-agua\/","title":{"rendered":"O DIREITO \u00c0 VIDA, O DIREITO \u00c0 \u00c1GUA*"},"content":{"rendered":"<p><em>por<\/em> <strong>Patrus Ananias<\/strong><\/p>\n<p>Recebemos a natureza de gra\u00e7a. Para quem tem f\u00e9, de Deus; para quem n\u00e3o tem f\u00e9, da vida, de uma origem misteriosa. Mas n\u00f3s recebemos de gra\u00e7a. O ar que n\u00f3s recebemos e respiramos \u00e9 vital, cinco minutos sem ele, morremos. Recebemos de gra\u00e7a a terra pela qual nos alimentamos e edificamos nossa casa e cidades.<\/p>\n<p>Vinculada \u00e0 terra, est\u00e1 a \u00e1gua. N\u00e3o satisfeitos, ao inv\u00e9s de aproveitarmos e usarmos bem, n\u00f3s envenenamos o ar que respiramos, a terra e consequentemente a \u00e1gua. A quest\u00e3o do aquecimento global e da diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas s\u00e3o aspectos preocupantes. Como podemos mobilizar cora\u00e7\u00f5es e mentes, como podemos sensibilizar as pessoas para causas relacionadas com a vida a partir desse tema vital que \u00e9 a \u00e1gua e que se acumula naturalmente com o ar, com a natureza e com a terra?<\/p>\n<p>Fun\u00e7\u00e3o social da terra e da \u00e1gua<br \/>\nA \u00e1gua tem uma fun\u00e7\u00e3o social; teoricamente a \u00e1gua \u00e9 um bem p\u00fablico. A terra \u00e9 a guardi\u00e3 das \u00e1guas, e vinculada \u00e0 terra, est\u00e3o os recursos que possibilitam e mant\u00e9m as \u00e1guas: a biodiversidade, os ecossistemas. A terra no Brasil \u00e9 vista como um bem privado sem limites, ali\u00e1s o direito de propriedade no Brasil \u00e9 do s\u00e9culo XIX. \u00c9 o direito de ter, usar e abusar.<\/p>\n<p>Para preservar as \u00e1guas, esse bem sagrado, essencial a vida de cada fam\u00edlia, de cada comunidade, de cada regi\u00e3o, n\u00f3s temos que preservar a terra. Por esta raz\u00e3o, o direito \u00e0 propriedade n\u00e3o pode ser absoluto. O direito \u00e0 propriedade tem que estar adequado \u00e0s exig\u00eancias do bem comum, do interesse coletivo e do projeto nacional. O direito \u00e0 propriedade tem limites. Precisamos fazer o uso mais racional e amoroso da terra, da \u00e1gua, dos bens da natureza.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o do individualismo tamb\u00e9m \u00e9 importante. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, centrados no indiv\u00edduo, estimulam o consumismo, ao cada um por si e o diabo contra todos. Pois bem sabemos que Deus s\u00f3 opera onde h\u00e1 solidariedade e trabalho coletivo. Uma coisa s\u00e3o os direitos e garantias individuais, o respeito ao mist\u00e9rio e a individualidade de cada ser humano, agora, outra coisa \u00e9 o individualismo. Nenhum ser humano existe sozinho. N\u00f3s somos essencialmente seres comunit\u00e1rios, sociais. Por dependermos uns dos outros, temos que recuperar a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, societ\u00e1ria da vida e come\u00e7ar a discutir a quest\u00e3o vital da \u00e1gua, em rela\u00e7\u00e3o a esse direito abusivo da propriedade.<\/p>\n<p>A Casa Comum<br \/>\nOs direitos individuais t\u00eam que se adequar aos direitos sociais, aos direitos coletivos. O que \u00e9 o bem comunit\u00e1rio? O Papa Francisco colocou isso muito bem na Enc\u00edclica Laudato Sien \u2013 Sobre o Cuidado com a Casa Comum. Seja aqui em Belis\u00e1rio, seja no munic\u00edpio de Muria\u00e9, seja na Zona da Mata, seja em Minas Gerais, seja no Brasil, seja na Am\u00e9rica Latina, seja no planeta, n\u00f3s vivemos em comunidade, n\u00f3s vivemos em uma casa comum, o ar que respiramos \u00e9 o mesmo e as fontes da vida s\u00e3o as mesmas. E associada a essa dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da vida se encontra o nosso compromisso com as gera\u00e7\u00f5es presentes e com as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Temos o legado secular da concentra\u00e7\u00e3o da terra urbana e rural e a terra para fins especulativos. No s\u00e9culo XXI com os desafios sociais ambientais que n\u00f3s estamos vivendo, n\u00e3o se admite mais propriedade especulativa, uma propriedade que n\u00e3o cumpra uma fun\u00e7\u00e3o social, que n\u00e3o contribua para o bem comum.<\/p>\n<p>Como enfrentar a polui\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o das \u00e1guas? \u00c9 uma coisa assustadora: qualquer rio que passe em qualquer cidade fica polu\u00eddo. \u00c9 o caminho natural dos esgotos. A minha regi\u00e3o \u00e9 seca e por isso sou apaixonado com chuva. Em Bocai\u00fava se chover 20 dias o povo diz: \u201c\u00d4 tempo bom! \u201d. O que assusta na minha regi\u00e3o \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o dos rios, os rios que eram perenes na minha inf\u00e2ncia n\u00e3o existem mais por v\u00e1rios fatores: polui\u00e7\u00e3o, desmatamento, fim das matas ciliares e a a\u00e7\u00e3o nefasta das mineradoras. A economia de Minas est\u00e1 muito ligada \u00e0 minera\u00e7\u00e3o e o que aconteceu em Mariana, Brumadinho e pode acontecer em outras cidades, \u00e9 inaceit\u00e1vel. As mineradoras cometem essas trag\u00e9dias criminosas, comprometem bacias hidrogr\u00e1ficas e ainda h\u00e1 setores da sociedade que avaliam que a Vale tem que voltar a funcionar, pois gera emprego.<\/p>\n<p>Como enfrentar de forma eficaz a quest\u00e3o nefasta das mineradoras? Como enfrentar setores do agroneg\u00f3cio? Tudo isso \u00e9 heran\u00e7a nefasta do latif\u00fandio, do coronelismo, da explora\u00e7\u00e3o das terras e das mineradoras. \u00c9 razo\u00e1vel voc\u00ea fazer irriga\u00e7\u00e3o de pastos, milhares e milhares de hectares, dia e noite por meio de po\u00e7os artesianos? Assim como as nossas nascentes, os nossos po\u00e7os t\u00eam limites. Os recursos h\u00eddricos subterr\u00e2neos tamb\u00e9m t\u00eam limites. O Brasil precisa produzir alimentos? Precisa. Mas alimentos saud\u00e1veis e, sobretudo, os que promovam a vida e n\u00e3o a morte.<\/p>\n<p>Ainda temos o desafio do saneamento b\u00e1sico. Desde menino eu escuto que os governantes n\u00e3o gostam de fazer saneamento b\u00e1sico por que n\u00e3o aparece. Segundo dados da ONU, 35 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel; 100 milh\u00f5es, quase a metade da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, n\u00e3o t\u00eam acesso ao saneamento b\u00e1sico, ou seja, n\u00f3s praticamente n\u00e3o temos acesso ao tratamento de esgoto. Um pa\u00eds como o Brasil ainda n\u00e3o tem investimento consolidado no tratamento de esgoto.<\/p>\n<p>Precisamos ter uma rela\u00e7\u00e3o melhor com as \u00e1guas da chuva. No governo Lula, tivemos algumas experi\u00eancias interessantes e uma delas se consolidou: a experi\u00eancia com as cisternas. Foram constru\u00eddas um milh\u00e3o e duzentas mil cisternas. Uma tecnologia simples, feita por um nordestino, se resume a um equipamento que se coloca nas casas para aproveitar a \u00e1gua das chuvas, muito \u00fatil principalmente nos per\u00edodos da seca. Eu visitei no sert\u00e3o da Bahia, quando era ministro d Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome, uma resid\u00eancia onde existia uma cisterna. Perguntei sobre os benef\u00edcios para a dona da casa e ela disse: \u201co benef\u00edcio maior \u00e9 ficar mais perto dos meus filhos\u201d. Ela gastava tr\u00eas ou quatro horas, por dia, carregando \u00e1gua na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ocasionalmente a chuva provoca estragos. Mas de fato, tudo est\u00e1 interligado como se f\u00f4ssemos um. Tudo est\u00e1 interligado numa casa comum. \u00c9 uma quest\u00e3o urbana, do jeito que as nossas cidades est\u00e3o, qualquer chuva \u00e9 um problema. Com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, tudo \u00e9 asfalto e cimento. As \u00e1reas verdes cada vez mais reduzidas, se n\u00e3o, inexistentes. Ent\u00e3o vira trag\u00e9dia. Por isso eu digo sempre, temos que pensar a quest\u00e3o rural e urbana de uma forma mais integrada. Na \u00e1rea rural, principalmente nas regi\u00f5es mais \u00e1ridas, precisamos estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o bem mais saud\u00e1vel, de aproveitamento. Que foi o que come\u00e7amos a fazer e podemos continuar desenvolvendo.<\/p>\n<p>Considero fundamental cada um fazer sua parte: reduzir o lixo, participar da coleta seletiva, dar um uso mais cuidadoso e carinhoso para a \u00e1gua, por\u00e9m n\u00e3o podemos perder de vista que o drama maior est\u00e1 com o grande capital, com as mineradoras, com o agroneg\u00f3cio com as grandes ind\u00fastrias e corpora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam limites.<\/p>\n<p>Uma grande tarefa nossa, como crist\u00e3os, como pessoas de bem, comprometidas com a vida, que queremos uma sociedade mais anunciadora, mais acolhedora, \u00e9 fortalecer a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria. Vamos estimular as pessoas a abrirem os olhos e o cora\u00e7\u00e3o, a pensar mais no coletivo. A sociedade brasileira precisa consolidar um conceito ampliado de comunidade com as pessoas de boa vontade, com as pessoas que querem construir uma sociedade justa, fraterna, solid\u00e1ria, que preserve os recursos naturais, que preserve a \u00e1gua para gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>*Palestra proferida no I F\u00f3rum das \u00c1guas de Belis\u00e1rio \u2013 Muria\u00e9\/MG \u2013 23\/03\/2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Patrus Ananias Recebemos a natureza de gra\u00e7a. Para quem tem f\u00e9, de Deus; para quem n\u00e3o tem f\u00e9, da vida, de uma origem misteriosa. Mas n\u00f3s recebemos de gra\u00e7a. O ar que n\u00f3s recebemos e respiramos \u00e9 vital, cinco minutos sem ele, morremos. 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