{"id":290,"date":"2012-05-24T18:31:20","date_gmt":"2012-05-24T18:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=290"},"modified":"2022-11-03T10:58:11","modified_gmt":"2022-11-03T13:58:11","slug":"sertao-a-forte-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/sertao-a-forte-palavra\/","title":{"rendered":"Sert\u00e3o \u2013 a forte palavra"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na Revista Brasileiros, em agosto de 2007<\/em><\/p>\n<p>Patrus Ananias<\/p>\n<p><em>O texto abaixo, fruto de reflex\u00f5es sobre a palavra &#8220;Sert\u00e3o&#8221; na obra prima de Guimar\u00e3es Rosa (<\/em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<em>), j\u00e1 aniversaria. Foi escrito em 2007 e recebido pela Revista Brasileiros.Depois, em 2011, integrou o livro organizado por Carlos Alberto Correa Salles e editado pela CRV. No entanto, \u00e9 um texto que acompanha caminhos; atualiza perguntas; estimula procuras. Por isso, reproduzo-o e o disponibilizo para consultas. Com isso, coloco-o tamb\u00e9m como argumento de di\u00e1logos, conversa e debate sobre nosso extenso Brasil. \u00c9, pelo tamanho, fora dos padr\u00f5es da nova m\u00eddia. Mas compartilhar ideias tem isso de se estender para onde a vista tenta alcan\u00e7ar.<\/em><\/p>\n<p>Segue o texto:<!--more--><\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o e o encantamento que sentimos depois de uma boa releitura do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> n\u00e3o nos permitem fugir ao lugar comum, repetir o que tantos j\u00e1 disseram e de forma mais elegante: o romance sapiencial de Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 uma obra oce\u00e2nica, inesgot\u00e1vel. Al\u00e9m de ser um espl\u00eandido, cl\u00e1ssico romance inserido na mais hist\u00f3rica e elevada tradi\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> emerge como um grande livro, fundamental mesmo no processo de conhecimento da forma\u00e7\u00e3o e dos desafios do Brasil. A obra tem ainda a respald\u00e1-la e fecund\u00e1-la um elevado teor de indaga\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Neste texto pretendo trabalhar diferentes acep\u00e7\u00f5es da palavra \u201csert\u00e3o\u201d no livro, que desde o t\u00edtulo o coloca como grande, associado \u00e0s veredas, \u00e1guas rasas, discretas, silenciosas com carreiras, bel\u00edssimas, de buritis, repondo tamb\u00e9m a dimens\u00e3o do caminho estreito, refer\u00eancia sutil de rumo, o\u00e1sis nas regi\u00f5es e nos tempos mais secos dos gerais, do cerrado, da caatinga.<\/p>\n<p>O meu desejo inicial era trabalhar o vari\u00e1vel significado da palavra sert\u00e3o nos n\u00edveis do romance, da geografia, da hist\u00f3ria e da pol\u00edtica brasileiras e das quest\u00f5es filos\u00f3ficas. N\u00e3o foi poss\u00edvel em face das caracter\u00edsticas da obra. Essas dimens\u00f5es, e tantas mais, s\u00e3o indissoci\u00e1veis no livro e os volteios do narrador v\u00e3o amarrando pela mem\u00f3ria as diferentes pontas do sert\u00e3o, embora Riobaldo achasse que elas \u201cnem n\u00e3o misturam\u201d. Mas s\u00e3o ast\u00facias rosianas&#8230; \u201cA lembran\u00e7a da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem n\u00e3o misturam. Contar seguido, alinhavado, s\u00f3 mesmo sendo as coisas de rasa import\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Como Riobaldo \u00e9 um narrador que vai alterando os assuntos, fica dif\u00edcil, se n\u00e3o imposs\u00edvel, um acompanhamento tem\u00e1tico, sist\u00eamico, linear da sua fala que vai acompanhando os fluxos da mem\u00f3ria, das reflex\u00f5es, das d\u00favidas, do inconsciente. Melhor, ent\u00e3o, \u00e9 acompanh\u00e1-lo na sua aventura e rela\u00e7\u00e3o com a palavra emergente, crescente-sert\u00e3o.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio inaugural do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> onde se desenvolvem os acontecimentos vividos e narrados por Riobaldo Tatarana \u00e9 uma realidade muito nossa, profundamente brasileira, e tem como refer\u00eancia fundamental o Rio S\u00e3o Francisco, que de \u201ct\u00e3o grande se compadece\u201d, s\u00edmbolo e express\u00e3o concreta da unidade nacional. O espa\u00e7o territorial, t\u00e3o bem mapeado por Alan Viggiano no seu livro <em>Itiner\u00e1rio de Riobaldo Tatarana<\/em>, \u00e9 uma regi\u00e3o que compreende o centro-norte de Minas, integrando, al\u00e9m do S\u00e3o Francisco, o Vale do Jequitinhonha, o Sul da Bahia, e o centro-leste de Goi\u00e1s e Tocantins, incluindo os terrenos do Planalto Central sobre os quais se ergueu a capital do Brasil. Essa regi\u00e3o forma um magn\u00edfico ecossistema, hoje muito machucado, exaurido e seriamente amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o: o Cerrado. E forma, tamb\u00e9m, o pano de fundo do romance.<\/p>\n<p>J\u00e1 na primeira p\u00e1gina, o autor, sempre se confundindo com o seu espl\u00eandido personagem e narrador, contextualiza o sert\u00e3o em termos geogr\u00e1ficos e de espa\u00e7os vazios, n\u00e3o ocupados, territ\u00f3rios confusos e difusos como sempre foi o complexo e n\u00e3o resolvido tema da ocupa\u00e7\u00e3o de terra no Brasil. Explicita ainda a aus\u00eancia total do Estado e da lei: \u201cO senhor tolere, isto \u00e9 o sert\u00e3o. Uns querem que n\u00e3o seja: que situado sert\u00e3o \u00e9 para os campos gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, ent\u00e3o, aqui n\u00e3o \u00e9 dito sert\u00e3o? Ah, que tem maior! Lugar sert\u00e3o se divulga: \u00e9 onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze l\u00e9guas, sem topar casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade\u201d.<\/p>\n<p>Feita essa apresenta\u00e7\u00e3o aparentemente descritiva do sert\u00e3o, eis que ele ganha novas propor\u00e7\u00f5es. Transcende as \u00e1reas externas e internas. A palavra sert\u00e3o abre largo. Expressa todos, os mais diferentes territ\u00f3rios, vis\u00edveis ou sentidos, pressentidos, intu\u00eddos. \u201cO gerais correem volta. Essesgerais s\u00e3o sem tamanho (&#8230;) O sert\u00e3o est\u00e1 em toda a parte\u201d.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es Rosa apresenta, assim, o sert\u00e3o sob os mais diferentes enfoques e sentidos. Primeiro, como vimos, o territ\u00f3rio n\u00e3o demarcado, mas real, existente, herdeiro direto das capitanias heredit\u00e1rias, das sesmarias, do latif\u00fandio, do coronelismo. \u00c9 o lugar de onde veio, nas palavras insuspeitas de Francisco Adolfo Varnhagen no primeiro volume da <em>Hist\u00f3ria Geral do Brasil<\/em>, \u201ca mania de muita terra (que) acompanhou sempre pelo tempo adiante os sesmeiros, e acompanha ainda os nossos fazendeiros, que se regalam em ter matos e campos em tal extens\u00e3o que levam dias a percorrer-se, bem que \u00e0s vezes s\u00f3 a d\u00e9cima parte esteja aproveitada, mas se tivesse havido alguma resist\u00eancia em dar o mais, n\u00e3o faltaria quem se apresentando a buscar o menos\u201d.<\/p>\n<p>A partir dessas vastas extens\u00f5es improdutivas, o autor, sempre pelo discurso instigante de Riobaldo, vincula o sert\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o existencial das pessoas e das comunidades e transborda o sert\u00e3o para o Brasil, o mundo, os campos mais alargados da metaf\u00edsica e do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao fazer a apresenta\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o geogr\u00e1fico indiviso, sem a presen\u00e7a da autoridade democr\u00e1tica e coesionadora do Estado, o autor apresenta uma realidade s\u00f3cio-pol\u00edtica-espacial que durante anos ficou obscurecida em sua obra. Foi quase sempre considerado um escritor apol\u00edtico e indiferente aos grandes temas e desafios da sociedade brasileira. Leituras mais atentas desfazem essa imagem, como a da professora Heloisa Starling, no seu not\u00e1vel <em>Lembran\u00e7as do Brasil \u2013 Teoria Pol\u00edtica, Hist\u00f3ria e Fic\u00e7\u00e3o em Guimar\u00e3es Rosa. Nesse livro, a professora projeta luzes preciosas e ajuda a tornar vis\u00edvel essa rec\u00f4ndita mas preciosa faceta da obra rosiana, que vem a ser sua refinada compreens\u00e3o da hist\u00f3ria, da pol\u00edtica e da prec\u00e1ria e injusta organiza\u00e7\u00e3o social do Brasil. O sert\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a terra onde prevalece a concep\u00e7\u00e3o hobbesiana do estado de natureza, situa\u00e7\u00e3o constante de inseguran\u00e7a e de guerra, anterior ao pacto social que funda o Estado. \u00c9 ainda, como nos mostra Helo\u00edsa Starling, o lugar do conflito que n\u00e3o encontrou espa\u00e7os institucionais para ser processado dentro dos par\u00e2metros normatizadores da lei, do di\u00e1logo e da negocia\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia da lei, palavra que tanto fascinava Z\u00e9 Bebelo, torna o sert\u00e3o espa\u00e7o da viol\u00eancia: \u201cSert\u00e3o. O senhor sabe: sert\u00e3o \u00e9 onde manda quem \u00e9 o mais forte, com as ast\u00facias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Z\u00e9 Bebelo, querendo impor a lei ao seu modo e promover o progresso, buscando, intuitivo e apressado, os contornos, ainda que prim\u00e1rios, de um projeto nacional, vincula o sert\u00e3o \u00e0s dimens\u00f5es do Brasil, ao confrontar os \u201cque desonram o nome da P\u00e1tria e este sert\u00e3o nacional\u201d. O sert\u00e3o se mostra como espa\u00e7o da Pol\u00edtica e met\u00e1fora do Brasil.<\/p>\n<p>No discurso que faz em sua defesa quando do seu julgamento \u2013 um dos momentos mais sublimes do livro \u2013 ap\u00f3s ser vencido por Joca Ramiro e seus comandados, Z\u00e9 Bebelo explicita com mais nitidez sua vis\u00e3o pol\u00edtica a partir do sert\u00e3o e da sua dial\u00e9tica sertaneja. O que ele quer \u00e9 apoderar-se (superar a barb\u00e1rie, normatizar, levar a presen\u00e7a civilizadora do Estado imbu\u00eddo de suas responsabilidades sociais, das institui\u00e7\u00f5es, servi\u00e7os e equipamentos p\u00fablicos) e sair do sert\u00e3o depois de cumprida a miss\u00e3o integradora, a presen\u00e7a da lei: \u201ccoisa que eu queria era proclamar outro governo, mas com a ajuda, depois, de v\u00f3s, tamb\u00e9m. Estou vendo que a gente s\u00f3 brigou por um mal-entendido, maxim\u00e9. N\u00e3o obede\u00e7o ordens de chefes pol\u00edticos. Se eu alcan\u00e7asse, entrava para a pol\u00edtica, mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para votarem em mim, para deputado&#8230; Ah, este Norte em reman\u00eancia: progresso forte, fartura para todos, a alegria nacional (&#8230;) A gente tem de sair do sert\u00e3o. Mas s\u00f3 se sai do sert\u00e3o \u00e9 tomando conta dele a dentro&#8230;\u201d. Z\u00e9 Bebelo quer melhorar o Brasil, tem anseios e sentimentos intuitivos de justi\u00e7a e desenvolvimento: \u201co que imponho \u00e9 se educar e socorrer as inf\u00e2ncias deste sert\u00e3o\u201d. Mas quer uma moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, dentro dos marcos do velho coronelismo, com os votos encabrestados dos cabras comandados por chefes como Joca Ramiro.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica social, o olhar atento sobre as multid\u00f5es de exclu\u00eddos e vitimizados, sempre espreita na fala no narrador: \u201cPorque, num estado de tempo, j\u00e1 tinham surgido vindo milhares desses, para pedir cura, os doentes condenados: l\u00e1zaros de lepra, aleijados por horr\u00edveis formas, feridentos, os cegos mais sem gestos, loucos acorrentados, idiotas, h\u00e9ticos e hidr\u00f3picos, de tudo: criaturas que fediam. Senhor enxergasse aquilo, o senhor desanimava (&#8230;) O sert\u00e3o est\u00e1 cheio desses. S\u00f3 quando se jornadeia de jagun\u00e7o, no teso das marchas, praxe de ir em movimento, n\u00e3o se nota tanto: o estatuto das mis\u00e9rias e enfermidades\u201d.<\/p>\n<p>Mas as refer\u00eancias pol\u00edticas e sociais da obra, por mais not\u00e1veis que sejam, n\u00e3o se reduzem a si mesmas e o livro tornou-se cl\u00e1ssico, definitivo, universal. Sendo profundamente brasileiro, adota uma linguagem que for\u00e7a a cada momento os limites do c\u00e2non e transcende, no conte\u00fado, o tempo e o espa\u00e7o na prospec\u00e7\u00e3o de temas e sentimentos permanentes, quase sempre n\u00e3o resolvidos. E a\u00ed, nessa conex\u00e3o entre o particular, o situado e o universal que a palavra sert\u00e3o emerge com grande for\u00e7a no quadro de uma obra que tem ainda a refor\u00e7\u00e1-la a singular cultura de seu autor. Guimar\u00e3es Rosa sabia muito.<\/p>\n<p>Dizer que o sert\u00e3o est\u00e1 em toda a parte \u00e9 atribuir ao termo diferentes varia\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas, \u00e9 dar a essa palavra uma expans\u00e3o que vai de \u00e1reas territoriais conflituosas aos espa\u00e7os mais recolhidos da mente, do cora\u00e7\u00e3o, da mem\u00f3ria, do inconsciente, da imagina\u00e7\u00e3o, tudo aquilo que nos leva \u00e0s perguntas permanentes em torno do mist\u00e9rio da nossa exist\u00eancia, individual e coletiva, e dos seus limites.<\/p>\n<p>Ainda nessa perspectiva material, o sert\u00e3o como espa\u00e7o f\u00edsico, cabe registrar a integra\u00e7\u00e3o entre o lugar e a pessoa que o habita e conhece. Assim como sert\u00e3o com as suas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a sua topografia, a sua aridez e vastid\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre propriet\u00e1rios e os agregados, vaqueiros, jagun\u00e7os, trabalhadores bra\u00e7ais, modula o homem como nos ensinou Euclides da Cunha n\u2019<em>Os Sert\u00f5es<\/em>, obra precursora e anunciadora do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. Aqui tamb\u00e9m o homem se imp\u00f5e e projeta o seu pensamento e a a\u00e7\u00e3o sobre o meio em que vive. Leitor atento, dentre outras correntes filos\u00f3ficas e espirituais, de Plat\u00e3o \u2013 o princ\u00edpio da id\u00e9ia \u2013 e da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u2013 no princ\u00edpio era o verbo \u2013 Guimar\u00e3es Rosa acreditava que \u201c&#8230; toda a\u00e7\u00e3o principia mesmo \u00e9 por uma palavra pensada. Palavra pensada, dada ou guardada, que vai rompendo rumo\u201d. Mas o homem e sua palavra n\u00e3o est\u00e3o dissociados do lugar, das condi\u00e7\u00f5es materiais, embora possam transcend\u00ea-los: \u201cSert\u00e3o sabe o senhor: sert\u00e3o \u00e9 onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver \u00e9 muito perigoso&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O sert\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o de disputas primitivas, ainda no est\u00e1gio anterior ao Estado, pr\u00e9-civilizat\u00f3rio do ponto de vista das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e jur\u00eddicas, dos direitos e deveres da nacionalidade e da cidadania. Mas ao mesmo tempo, j\u00e1 \u00e9, por outro lado, o lugar das id\u00e9ias, das palavras, das mais altas reflex\u00f5es e indaga\u00e7\u00f5es existenciais e humanas que v\u00e3o emergindo, com a expans\u00e3o da consci\u00eancia, a constru\u00e7\u00e3o do ser.<\/p>\n<p>Vivendo o seu entardecer, o seu \u201cdespoder\u201d, depois de ter sido o professor e jagun\u00e7o Riobaldo, o Tatarana, o Urutu-Branco, o grande personagem rosiano reconhece que o sert\u00e3o mudou (o Estado apareceu pelo menos mandando pol\u00edcia para acabar com o jaguncismo e abrir algumas estradas). No entanto, continua sendo territ\u00f3rio imenso, indiviso, regi\u00f5es distantes. Sert\u00e3o como o lugar do deserto, no livro simbolizado no Liso do Su\u00e7uar\u00e3o \u2013 onde se deram tantas e t\u00e3o profundas convers\u00f5es e viv\u00eancias espirituais \u2013, do sil\u00eancio, da quebra das comunica\u00e7\u00f5es, da ruptura com o mundo que n\u00e3o incorporou o sert\u00e3o. \u201cMas o senhor s\u00e9rio tenciona devassar a raso este mar de territ\u00f3rios, para sentimento de conferir o que existe? (&#8230;) Sert\u00e3o: estes seus vazios (&#8230;) Pediram not\u00edcias do sert\u00e3o (&#8230;) o sert\u00e3o nunca d\u00e1 not\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>O distante, pr\u00f3ximo sert\u00e3o \u00e9, ainda, o lugar da fragilidade e da alegria: \u201cO sert\u00e3o tem medo de tudo (&#8230;) No sert\u00e3o, at\u00e9 enterro simples \u00e9 festa\u201d. Nele, sempre presente a dualidade raz\u00e3o\/loucura, pois que o sert\u00e3o tem outros padr\u00f5es pr\u00f3prios de racionalidade: \u201cAh, mas, no centro do sert\u00e3o, o que \u00e9 doideira \u00e0s vezes pode ser a raz\u00e3o mais certa e de mais ju\u00edzo\u201d. Uma fala bem enquadrada na escola de Erasmo de Rotterdam e de Montaigne.<\/p>\n<p>O mundo rosiano navega, como registramos, em muitas sabedorias, bibliotecas e culturas. Vai da tradi\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica, de Plat\u00e3o, de Arist\u00f3teles, de Plotino, a variadas vertentes da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, portanto, boas ra\u00edzes metaf\u00edsicas; mas nunca tra\u00e7a rumo \u00e0 certeza absoluta, sect\u00e1ria, fechada. Fica sempre o lugar da d\u00favida, das sombras, dos enigmas, dos entretons \u2013 \u201cO que foi? O que \u00e9?\u201d. \u201cJagun\u00e7os em situa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 puro Heidegger e, com ele, a tradi\u00e7\u00e3o do existencialismo, do ser a\u00ed. Outras tradi\u00e7\u00f5es espirituais, como budismo, marcam presen\u00e7a no vasto romance: \u201c\u00c9, e n\u00e3o \u00e9. O senhor ache e n\u00e3o ache. Tudo \u00e9 e n\u00e3o \u00e9&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No roteiro n\u00e3o linear do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, Riobaldo retoma, quando fala do seu primeiro encontro com Diadorim \u2013 o Menino \u2013, o sert\u00e3o como lugar da viol\u00eancia: \u201cSert\u00e3o \u00e9 o penal, criminal. Sert\u00e3o \u00e9 onde o homem tem de ter a dura nuca e a m\u00e3o quadrada\u201d.<\/p>\n<p>Logo Riobaldo rep\u00f5e o sert\u00e3o no campo das palavras germinais e expansivas. Sert\u00e3o agora como met\u00e1fora da vida com suas altern\u00e2ncias de inseguran\u00e7a e paz, obscuridade e discernimento: \u201cSert\u00e3o \u00e9 isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nos giros memorial\u00edsticos de Riobaldo, o sert\u00e3o torna-se o lugar da d\u00favida, do n\u00e3o sabido, \u201conde o oculto do mist\u00e9rio se escondeu\u201d, como diria Caetano Veloso. Riobaldo n\u00e3o est\u00e1 contando a hist\u00f3ria de \u201cuma vida de sertanejo, seja se for jagun\u00e7o (&#8230;) Jagun\u00e7o \u00e9 o sert\u00e3o. O senhor pergunte quem foi que foi que foi o jagun\u00e7o Riobaldo?\u201d Riobaldo \u00e9 um sofisticado narrador que fala sobre a beleza e o enigma das coisas, a mat\u00e9ria vertente, e sabe \u201conde \u00e9 bobice a qualquer resposta, \u00e9 a\u00ed que a pergunta se pergunta\u201d.<\/p>\n<p>Essa busca do saber, do lado n\u00e3o revelado das coisas, dos desv\u00e3os das situa\u00e7\u00f5es, das pessoas e da mem\u00f3ria, essa inquieta\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica do n\u00e3o-saber, encontra no sert\u00e3o a sua plenitude: \u201cVou lhe falar. Lhe falo do sert\u00e3o. Ningu\u00e9m ainda n\u00e3o sabe. S\u00f3 umas rar\u00edssimas pessoas \u2013 e s\u00f3 essas poucas veredas. Veredazinhas\u201d.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o incorpora mitos e m\u00edsticos dos mais variados cantos do Brasil e do mundo. Os mitos e os arqu\u00e9tipos est\u00e3o vis\u00edveis na figura inating\u00edvel, quase sobrenatural de Joca Ramiro ou do pr\u00f3prio Medeiro Vaz. Isso sem falar na personalidade indecifr\u00e1vel de Diadorim. Acrescem aos mitos as introspec\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, enriquecidas com as prospec\u00e7\u00f5es do inconsciente. O mundo das coisas esquecidas, confusas, mutantes, ensombreadas. Riobaldo narra para recuperar os fragmentos, as reminisc\u00eancias, os desejos. O sert\u00e3o torna-se o sem-lugar e todos os lugares na refrega existencial de cada um. O sert\u00e3o est\u00e1 dentro e est\u00e1 fora, \u00e9 o emergente, \u00e9 a surpresa e o n\u00e3o-previsto: \u201cSert\u00e3o sempre. Sert\u00e3o \u00e9 isto: o senhor empurra para tr\u00e1s, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sert\u00e3o \u00e9 quando menos se espera (&#8230;). Agora o mundo quer ficar sem sert\u00e3o. (&#8230;) se melhor n\u00e3o seja que tivesse de sair nunca do sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que o sert\u00e3o deve sair da condi\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio bruto, sem lei, das paix\u00f5es n\u00e3o-sabidas, e abrir-se \u00e0s possibilidades dos conceitos, do conhecimento, da reflex\u00e3o, da sabedoria e do acertado conv\u00edvio social \u2013 ideal civilizat\u00f3rio de Riobaldo, o sert\u00e3o n\u00e3o pode por outro lado tornar-se um mero conceito, espa\u00e7o triste, desencantado, por demais racionalizado. H\u00e1 que se preservar o mist\u00e9rio e a grandeza do sert\u00e3o, um pouco de boas doideiras! Um mundo sem sert\u00e3o \u00e9 um mundo empobrecido, previs\u00edvel, sem lembran\u00e7as que se fazem presentes, \u00e9 o \u201cdesencantamento do mundo\u201d, para usar a conhecida express\u00e3o de Max Weber. A essa concep\u00e7\u00e3o desencarnada, burocratizada da vida, Guimar\u00e3es Rosa contrapunha a sua, esperan\u00e7osa, sertaneja, sempre-viva \u201cque a mi\u00fado vi\u00e7a e enfeita\u201d. \u201cO mundo \u00e9 m\u00e1gico\u201d.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o espiritual da obra de Guimar\u00e3es Rosa tem sido objeto de importantes estudos. Deus e o diabo s\u00e3o refer\u00eancias permanentes. Afinal, a obra se insere na tradi\u00e7\u00e3o f\u00e1ustica de Goethe e Thomas Mann. Heloisa de Ara\u00fajo Vilhena escreveu <em>O itiner\u00e1rio de Deus<\/em>, obra de muita erudi\u00e7\u00e3o e fina sensibilidade. Aqui nos interessa particularmente a associa\u00e7\u00e3o que o autor faz entre Nossa Senhora e o mar. O mar, que nos termos da narrativa Riobaldo nunca viu, era sem fim. Como eram sem fim o sert\u00e3o e os poderes de Nossa Senhora: \u201cE da exist\u00eancia desse (do dem\u00f4nio) me defendo, em pedras pontiagudas ajoelhado, beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia. Ah, s\u00f3 ela me vale mas por um mar sem fim&#8230; Sert\u00e3o (&#8230;) Digo isto ao senhor, e digo: paz\u201d. Riobaldo invoca todas as Nossas Senhoras sertanejas. \u00c9 um ecum\u00eanico, o sert\u00e3o est\u00e1 em todos os credos.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o continua forjando rumos, ampliando significados, indo e voltando, transcendendo o regional e a ele retornando para dar-lhe novos contornos na \u201cluta renhida\u201d e no encontro conflitivo e amoroso entre o homem e a terra, para lembrar mais uma vez a tr\u00edade euclidiana. O sert\u00e3o emergindo nos crespos interiores dos humanos torna-se lembran\u00e7a, mem\u00f3ria, entra mais uma vez nos terreiros n\u00e3o medidos do inconsciente: \u201cOs dias que s\u00e3o passados v\u00e3o indo em fila para o sert\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Nas andan\u00e7as pelos lugares onde se travam as batalhas e florescem sentimentos contradit\u00f3rios, \u201cnos arrancos do sert\u00e3o\u201d, Riobaldo vai fazendo, ao mesmo tempo, o percurso da guerra e de sua viagem interior. Integram-se o personagem, a natureza e o conflito. A extens\u00e3o territorial \u00e9 tamb\u00e9m a extens\u00e3o interior de quem se deixa levar e ao mesmo tempo acolhe e elabora aquela imensid\u00e3o, que se torna parte do seu ser: \u201cO senhor sabe o mais que \u00e9, de se navegar sert\u00e3o num rumo sem termo, amanhecendo cada manh\u00e3 num pouso diferente, sem ju\u00edzo de raiz? (&#8230;) Desde o raiar da aurora, o sert\u00e3o ponteia. Os tamanhos\u201d.<\/p>\n<p>As fronteiras imagin\u00e1rias dos territ\u00f3rios n\u00e3o demarcados, sejam do homem, sejam da terra, sejam dos campos da luta, s\u00e3o sempre vari\u00e1veis. Retorna o tema e a presen\u00e7a de Deus numa abordagem mais imanente: \u201c\u00c9 nisto, que conto ao senhor, se v\u00ea o sert\u00e3o do mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe \u2013 mas que s\u00f3 por interm\u00e9dio da a\u00e7\u00e3o das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas do mundo. O grande sert\u00e3o \u00e9 a forte arma. Deus \u00e9 um gatilho?\u201d<\/p>\n<p>Numa obra das propor\u00e7\u00f5es do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, n\u00e3o poderia faltar o tema da culpa, t\u00e3o presente nos cl\u00e1ssicos da trag\u00e9dia grega, na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e suas ramifica\u00e7\u00f5es como o islamismo, o marxismo, a pr\u00f3pria obra de Nietzsche. Encontra-se presente e elaborada na psican\u00e1lise, sobretudo, na vida e na obra monumental de Sigmund Freud. Riobaldo carrega culpas. A culpa do pacto; ele pode n\u00e3o ter ocorrido \u2013 \u201co diabo n\u00e3o h\u00e1\u201d \u2013 mas Riobaldo se disp\u00f4s a faz\u00ea-lo. Viveu uma estranha e perigosa experi\u00eancia. Transgrediu regras e limites humanos. Culpa do amor \u2013 e que amor! \u2013 por Diadorim. Outras culpas: a rela\u00e7\u00e3o com o pai, com Z\u00e9 Bebelo. O sert\u00e3o e a culpa se encontram: \u201ctudo por culpa de quem? Dos malguardos do sert\u00e3o\u201d. Malguardos!<\/p>\n<p>O sert\u00e3o cresce como dimens\u00e3o interior e existencial no encontro do homem com o seu pleno destino. A busca de Riobaldo de sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, voca\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a, o seu longo e complexo processo de forma\u00e7\u00e3o no contexto de um espa\u00e7o territorial desgovernado ganha novos focos e possibilidades quando Diadorim, amor e alter-ego de Riobaldo, vai desvendando, na hora da crise, al\u00e9m das suas qualidades de guerreiro e ex\u00edmio atirador j\u00e1 comprovadas, os crescentes sinais de lideran\u00e7a e chefia: \u201c&#8230; de uns tempos, \u00e9 meu pressentir: que voc\u00ea pode \u2013 mas encobre; que, quando voc\u00ea quiser calcar firme, com as estribeiras, a guerra varia de figura\u201d. Riobaldo resiste: \u201ceu era o contr\u00e1rio de um mandador\u201d. Mas Diadorim tinha poderes.<\/p>\n<p>Entre d\u00favidas e temores, come\u00e7a a se firmar, estranho e contradit\u00f3rio o futuro chefe, o Urutu-Branco, comandante dos \u201cjagun\u00e7os meus, os riobaldos\u201d. Foi um processo. Riobaldo foi apalpando, sentindo as ebuli\u00e7\u00f5es interiores, as condi\u00e7\u00f5es do conflito que estavam vivendo, j\u00e1 ent\u00e3o sob a lideran\u00e7a fragilizada, posta sob suspeita, de Z\u00e9 Bebelo. Riobaldo vivia os seus momentos de espanto, momentos de sert\u00e3o: \u201cRebulir com o sert\u00e3o, como dono. Mas o sert\u00e3o era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; n\u00e3o era para \u00e0 for\u00e7a se compor. Todos que malmontam no sert\u00e3o s\u00f3 alcan\u00e7am de reger em r\u00e9dea por uns trechos; que sorrateiro o sert\u00e3o vai virando tigre debaixo da sela (&#8230;) Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma\u201d. Exercer cargo de supremo comando e nunca ter certeza de coisa nenhuma s\u00e3o, de fato, coisas de dif\u00edcil acerto. Se bem que em \u00e9pocas de tantas certezas vazias como a nossa, talvez fosse interessante&#8230; Mas devagar as convic\u00e7\u00f5es mais profundas de Riobaldo v\u00e3o se impondo.<\/p>\n<p>A lideran\u00e7a de Z\u00e9 Bebelo cada dia mais fragilizada conduz aos caminhos mais confusos: \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos em fundos fundos\u201d. Mas a hora de Riobaldo n\u00e3o havia chegado: \u201cMas eu, o que \u00e9 que eu era? Eu ainda n\u00e3o era ainda\u201d. Enquanto isso, a hora sert\u00e3o se aproximava, o encontro direto com a dura realidade: \u201cSert\u00e3o \u2013 se diz \u2013 o senhor querendo procurar n\u00e3o encontra. De repente, por si, quando a gente n\u00e3o espera o sert\u00e3o vem. Mas, aonde h\u00e1, era o sert\u00e3o churro, o pr\u00f3prio mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Riobaldo gostava de Z\u00e9 Bebelo e sua personalidade sedutora o encantava. Come\u00e7am a divergir sobre os caminhos e estrat\u00e9gias do sert\u00e3o: \u201cZ\u00e9 Bebelo previa de vir, c\u00e1 embaixo, no escuro do sert\u00e3o, e, o que ele pensava, queria, e mandava; tal a guerra por confronta\u00e7\u00e3o; e para o sert\u00e3o retroceder, feito pusesse o sert\u00e3o para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Bebelo continua com seus discursos c\u00edvicos, nacionais: \u201cEi, do Brasil, amigo (&#8230;) vim departir al\u00e7ada e foro: outra lei \u2013 em cada esconso, nas toesas deste sert\u00e3o (&#8230;) Z\u00e9 Bebelo que esses projetos ouvisse, ligeiro era capaz de ficar cheio de influ\u00eancia: exclamar que era assim mesmo, para se transformar naquele sert\u00e3o inteiro do interior, com benfeitorias para um bom governo, para esse \u00f4-Brasil\u201d. \u00c0s desconfian\u00e7as pessoais e estrat\u00e9gicas, acresce um certo cansa\u00e7o, desgaste com as falas discursivas de Z\u00e9 Bebelo. O momento exigia outro comando, outra leitura do sert\u00e3o. \u201cZ\u00e9 Bebelo, para mim, tinha gastado as vantagens\u201d.<\/p>\n<p>Quando \u201cos prazos principiavam\u201d, quando Riobaldo perde de vez a confian\u00e7a na lideran\u00e7a e no discernimento de Z\u00e9 Bebelo, come\u00e7a por desqualific\u00e1-lo, em tom de blague e ironia, justo no seu desejo de organizar e por ordem no sert\u00e3o: \u201cos benef\u00edcios que os grados do governo podem desempenhar, remediando o sert\u00e3o do desleixo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o revestido do poder de chefia, o Urutu-Branco ouve do Seo Ornelas, velho fazendeiro, palavras que expressam o sert\u00e3o como territ\u00f3rio da ant\u00edtese, dos contr\u00e1rios, come\u00e7ando por uma boa s\u00edntese: \u201cO sert\u00e3o \u00e9 bom. Tudo aqui \u00e9 perdido, tudo aqui \u00e9 achado. O sert\u00e3o \u00e9 confus\u00e3o em grande demasiado sossego&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No poder, Riobaldo viveu as grandes tenta\u00e7\u00f5es: \u201cEu era o chefe. Vez minha de dar comando e estar por mais alto (&#8230;) Todos deviam de me obedecer completamente\u201d. Sentiu o sert\u00e3o sob seus p\u00e9s. O cora\u00e7\u00e3o de Riobaldo estava na dura disputa; a forte, envolvente auto-justificadora sedu\u00e7\u00e3o do poder autocr\u00e1tico, tir\u00e2nico, desprovido de sabedoria e compaix\u00e3o. Assim h\u00e1 tantos exemplos, entre tr\u00e1gicos e caricatos, na fic\u00e7\u00e3o e na Hist\u00f3ria, de cru\u00e9is ditadores, enlouquecidos pela arrog\u00e2ncia e prepot\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o nosso bravo jagun\u00e7o resistiu. Aprontou algumas, mais amea\u00e7ou do que fez, mas n\u00e3o se tornou mais uma besta na insensata nau dos poderosos que perdem a consci\u00eancia dos seus pr\u00f3prios limites e fragilidades. Tudo por conta de uma vozinha fr\u00e1gil, bendita, nossasenhorazinha. Voz que emergia dos fundos do sert\u00e3o da consci\u00eancia: \u201cAh, um recanto tem, mi\u00fados remansos, onde o dem\u00f4nio n\u00e3o consegue espa\u00e7o de entrar, ent\u00e3o em seus grandes pal\u00e1cios. No cora\u00e7\u00e3o da gente, \u00e9 o que estou figurando. Meu sert\u00e3o, meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia: \u2018tento, cautela; toma tento Riobaldo: que o diabo fincou p\u00e9 de governar tua decis\u00e3o\u201d. E a escolha, nessas horas, se imp\u00f5e inescap\u00e1vel, perempt\u00f3ria: \u201cEu era o chefe. O sert\u00e3o n\u00e3o tem janelas nem portas. E a regra \u00e9 assim: ou o senhor bendito governa o sert\u00e3o, ou o sert\u00e3o maldito vos governa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O chefe Riobaldo, o poderoso Urutu-Branco, assume comandar as suas tropas, fazer a guerra, derrotar os Herm\u00f3genes, mas n\u00e3o abre m\u00e3o de pastorear os seus sert\u00f5es interiores. As op\u00e7\u00f5es, todavia, nunca s\u00e3o claras, est\u00e1veis, definitivas. O sert\u00e3o tem variadas faces, interage com os humanos, est\u00e1 sempre em movimento, \u00e9 sempre um vir a ser heraclitiano: \u201cMas o sert\u00e3o est\u00e1 em movimento todo-tempo-salvo o que o senhor n\u00e3o v\u00ea (&#8230;) Sert\u00e3o n\u00e3o \u00e9 maligno nem caridoso (&#8230;) ele tira ou d\u00e1, agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo\u201d.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o vai integrando seres, realidades, sonhos, recorda\u00e7\u00f5es, fantasias, desejos. Assim, o sert\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o lugar da sexualidade vivida, sublimada ou reprimida. A Hist\u00f3ria, a Psican\u00e1lise, sobretudo a experi\u00eancia da vida nos ensinam que a sexualidade \u2013 prazerosa e delicada express\u00e3o humana \u2013 associada ao poder, tornam as duas t\u00e3o mais perigosas quanto menos transparentes, verdadeiras e espont\u00e2neas. No <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, a sexualidade est\u00e1 \u00e0 flor da terra e da pele. A rela\u00e7\u00e3o com Diadorim \u00e9 um volume \u00e0 parte. A neta de Seo Ornelas perigou no caminho do comandante: \u201ca boniteza dela esteve em minhas carnes\u201d. Riobaldo disputava o lugar entre os grandes chefes: \u201cMas sou, de mim, o Urutu-Branco, Riobaldo que Tatarana j\u00e1 fui; o senhor ter\u00e1 ouvido? A\u00ed o mais esse sert\u00e3o tem de ver, quem mais se abre e mais acha\u201d. O sert\u00e3o demon\u00edaco do poder pede espa\u00e7os: impor, dominar, violentar: \u201cA mocinha essa de saia preta e blusinha branca, um len\u00e7o vermelho na cabe\u00e7a (&#8230;) A mocinha me tentando, com seu parado de \u00e1guas\u201d. Riobaldo se superou. Afastou da sua chefia o poder de estuprar mocinhas e destruir fam\u00edlias: \u201cn\u00e3o perigou: no instante achei em minha id\u00e9ia, adiada, uma raz\u00e3o maior \u2013 que \u00e9 o sutil estatuto do homem valente. Aquela formosura, aquela delicadezazinha, ent\u00e3o podem ser assim, em toda seguran\u00e7a, feito ela fosse, por um exemplo, filha minha (&#8230;) Mas eu n\u00e3o quis! Ah, h\u00e1-de-o, quanto e qual n\u00e3o quis, digo ao senhor: e Deus mesmo baixa a cabe\u00e7a que sim: ah, era um homem danado diverso, era, eu \u2013 aquele jagun\u00e7o Riobaldo&#8230;\u201d O sert\u00e3o masculino, guerreiro \u00e9 tamb\u00e9m feminino: \u201cO sert\u00e3o n\u00e3o chama ningu\u00e9m \u00e0s claras; mas, por\u00e9m, se esconde e acena (&#8230;) Mas o sert\u00e3o de repente se estremece debaixo da gente&#8230; E \u2013 mesmo \u2013 poss\u00edvel o que n\u00e3o foi. O senhor talvez n\u00e3o acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinh\u00e1, por causa. D\u00f3i sempre na gente, alguma vez, todo amor ach\u00e1vel, que algum dia se desprezou&#8230;\u201d E foi de uma bonita mulher da vida, no Verde-Alecrim, que o chefe Urutu-Branco recebeu a boa li\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o quis que ela acolhesse tamb\u00e9m um de seus cabras: \u201cTu achou a gente aqui, no afrutado. Tu veio e vai, fortunosamente. Tu n\u00e3o repartindo, tu tem?\u201d Diante de s\u00e1bia interpela\u00e7\u00e3o, Riobaldo ponderou: \u201cA doidiv\u00e3 era uma afian\u00e7ada mulher. No sert\u00e3o tem de tudo\u201d.<\/p>\n<p>O poder vai se acalmando, encontrando \u00e1guas mais calmas, sempre mediando os desafios e apelos de fora com a boa pr\u00e1tica socr\u00e1tica da reflex\u00e3o e do auto-conhecimento: \u201cO sert\u00e3o vige \u00e9 dentro da gente (&#8230;) O senhor fa\u00e7a o que queira e o que n\u00e3o queira \u2013 o senhor toda-a-vida n\u00e3o pode tirar os p\u00e9s. O senhor n\u00e3o creia na quieta\u00e7\u00e3o do ar. Porque o sert\u00e3o se sabe s\u00f3 por alto. Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou \u00e9 trai\u00e7oeiro, muito desastroso. O senhor&#8230;\u201d H\u00e1 o sert\u00e3o do destino, do imprevis\u00edvel, do imponder\u00e1vel. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o sert\u00e3o da nossa liberdade, escolhas, das profundezas de cada pessoa, a inquieta\u00e7\u00e3o do ser que incorpora, como vimos, a tradi\u00e7\u00e3o existencialista de Kierkegaard a Heidegger.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o sendo assim a vida mesma \u00e9 o universo e o al\u00e9m, os mundos daqui e dacol\u00e1, \u00e9 esse Brasil imenso com as suas travas, a sua forma\u00e7\u00e3o inacabada, extens\u00f5es enormes, diferen\u00e7as, pobrezas andantes, esquecidas e abandonadas, for\u00e7as subterr\u00e2neas, horizontes sem fim; \u00e9 cada lugar na sua plural singularidade, \u00e9 o trem, uai, que p\u00f5e mais perto do velho Riobaldo o m\u00e9dico de Sete Lagoas e que leva o sert\u00e3o para a cidade. Sert\u00e3o \u00e9 o tempo que vai, e se perde e se recupera, fragmentado, confuso, enriquecido nas trilhas entrecruzadas das reminisc\u00eancias e do inconsciente; \u00e9 a hist\u00f3ria de cada um inserida na aventura comunit\u00e1ria, nacional e humana dos momentos e \u00e9pocas que se sucedem. \u00c9 tamb\u00e9m o futuro que se anuncia: \u201cSert\u00e3o velho de idades. Porque \u2013 serra pede serra \u2013 e desses, altas, \u00e9 o que o senhor v\u00ea bem: como \u00e9 que o sert\u00e3o vem e volta. N\u00e3o adianta se dar costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, t\u00e3o distantes. Rumor dele se escuta. Sert\u00e3o sendo de sol e os p\u00e1ssaros: urubu, gavi\u00e3o \u2013 que sempre voam as imensid\u00f5es por sobre&#8230; Travessia perigosa, mas \u00e9 da vida. Sert\u00e3o que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. At\u00e9 envelhecer vento. E os brabos bichos do fundo dele (&#8230;) Como o sert\u00e3o \u00e9 grande (&#8230;) o sert\u00e3o se abalava?\u201d<\/p>\n<p>Os tempos eram de guerra, vida e morte, muito juntas, atreladas. Tempo de espera, horas, dias longos; vai se armando o cen\u00e1rio para o grande confronto no Pared\u00e3o. A morte se prenuncia, espreita na linguagem simb\u00f3lica dos p\u00e1ssaros que passam \u2013 urubu, gavi\u00e3o. Riobaldo volta a eles e incorpora a gaivota, implac\u00e1vel ca\u00e7adora de peixes e bichos aqu\u00e1ticos, aves migrantes que v\u00eam de longe, do beira-mar, fazer seus ninhos nas nossas minas serranas, montanhosas: \u201cSei o grande sert\u00e3o? Sert\u00e3o: quem sabe dele \u00e9 urubu, gavi\u00e3o, gaivota, esses p\u00e1ssaros: eles sempre no alto, apalpando ares com pendurado p\u00e9, com o olhar remedindo a alegria e as mis\u00e9rias todas (&#8230;) O sert\u00e3o \u00e9 uma espera enorme\u201d. Ser e Tempo. O ser no tempo.<\/p>\n<p>No meio da batalha, o sert\u00e3o se torna um ente poderoso, divinizado. O senhor da guerra? Deus mesmo na simbologia b\u00edblica do Profeta Jonas? \u201cPorque aprender a vida \u00e9 que \u00e9 o viver, mesmo. O sert\u00e3o me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente do quente da boca&#8230;\u201d Deus vomita os t\u00e9pidos.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o demo, o mal na cosmovis\u00e3o rosiana n\u00e3o tem a \u00faltima palavra, ainda que seja na brutalidade da guerra: \u201ceu ia denunciar o nome, dar a cita: &#8230; Satan\u00e1s! Sujo! e dele disse somentes \u2013 S&#8230; sert\u00e3o&#8230; sert\u00e3o\u201d. Urutu-Branco pergunta ao cego Borromeu: \u201cVoc\u00ea \u00e9 o sert\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Finda a guerra, derrotados os herm\u00f3genes, fechado o ato final da trag\u00e9dia, morto Diadorim, recordando aquele momento, Riobaldo pergunta ao seu discreto interlocutor: \u201cO senhor v\u00ea aonde \u00e9 o sert\u00e3o? Beira dele, meio dele?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Depois da guerra, Riobaldo ultimou o jagun\u00e7o que era: \u201cDisse adeus para todos, simplesmente (&#8230;) Desapoderei\u201d. Deu ent\u00e3o para especular id\u00e9ias. E entre tantas nos deixou essa inquieta quest\u00e3o sertaneja e com ela algumas picadas que buscam o seu variado e m\u00faltiplo sentido: territ\u00f3rios, viv\u00eancias, sentimentos, lembran\u00e7as, sonhos, possibilidades. Vida e morte. Renascimento. Palavra m\u00e1gica, expandida, bem nossa. Do Brasil para o mundo, outros mundos. O sert\u00e3o carrega amores. Espalha como o vento energias boas. Boas novas: \u201cDo fundo do sert\u00e3o. O sert\u00e3o: o senhor sabe\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na Revista Brasileiros, em agosto de 2007 Patrus Ananias O texto abaixo, fruto de reflex\u00f5es sobre a palavra &#8220;Sert\u00e3o&#8221; na obra prima de Guimar\u00e3es Rosa (Grande Sert\u00e3o: Veredas), j\u00e1 aniversaria. Foi escrito em 2007 e recebido pela Revista Brasileiros.Depois, em 2011, integrou o livro organizado por Carlos Alberto Correa Salles e editado pela &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/sertao-a-forte-palavra\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Sert\u00e3o \u2013 a forte palavra&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,21,8,10],"tags":[],"views":1419,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290"}],"collection":[{"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=290"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6446,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290\/revisions\/6446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}