{"id":286,"date":"2012-06-13T17:35:57","date_gmt":"2012-06-13T17:35:57","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=286"},"modified":"2022-11-03T10:56:32","modified_gmt":"2022-11-03T13:56:32","slug":"odete-alem-dos-80","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/odete-alem-dos-80\/","title":{"rendered":"Odete al\u00e9m dos 80"},"content":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na revista Encontro, edi\u00e7\u00e3o de maio\/2012<\/p>\n<p>Patrus Ananias<\/p>\n<p>Depois de longos anos reencontrei Odete Lara. Inicialmente levei um susto. Eu a conheci no cinema, espl\u00eandida,como mulher e como atriz,nos anos 60 e 70 do s\u00e9culo passado, em filmes como\u00a0<em>Bonitinha, mas ordin\u00e1ria, Boca de Ouro, Copacabana me engana, O Drag\u00e3o da maldade contra o santo guerreiro.\u00a0<\/em>Foi uma das musas do chamado Cinema Novo. O cineasta Ant\u00f4nio Carlos da Fontoura, que a dirigiu em dois filmes, considera-a \u201cuma das mais cinematogr\u00e1ficas atrizes do cinema brasileiro, com completa no\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o cinematogr\u00e1fico, do posicionamento dos refletores e do enquadramento da c\u00e2mera. Uma atriz nata, conscientemente linda, sempre no \u00e2ngulo favor\u00e1vel para n\u00f3s, enquanto admiradores, e para ela, enquanto admirada\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>Antes do cinema foi modelo, fez teatro e televis\u00e3o, cantou com \u201cengenho e arte\u201d m\u00fasicas de Vin\u00edcius de Moraes, Chico Buarque e outros mais. No teatro esteve em duas pe\u00e7as que marcaram \u00e9poca:\u00a0<em>Liberdade, liberdade<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come<\/em>. Mas confessou que n\u00e3o se sentia bem no teatro: \u201cEu tinha pavor do palco. Sou muito retra\u00edda. Fico nervosa todas as noites\u201d. Sua voca\u00e7\u00e3o era o cinema.<\/p>\n<p>Pelo final dos anos 70, descobri que escrevia. Li com prazer\u00a0<em>Eu nua<\/em>. Escreveu outros. Traduziu obras estrangeiras. Enfim, uma \u201cmulher supimpa\u201d, inteligente, atrevida. Quebrou padr\u00f5es de comportamento, ajudou-nos a construir novos horizontes e possibilidades.<\/p>\n<p>Guardei dela a imagem da grande artista na mulher bonita e sensual. Se n\u00e3o carecia de sua beleza para ser profissional not\u00e1vel, tamb\u00e9m n\u00e3o a dispensava. Dela tinha plena consci\u00eancia e fazia bom uso.<\/p>\n<p>Eis que, de repente, eu me deparo surpreso, em um programa de televis\u00e3o, com uma envelhecida Odete Lara, al\u00e9m dos 80. Perdeu aquele esplendor corporal que tanto mexeu com o imagin\u00e1rio da minha gera\u00e7\u00e3o. A primeira impress\u00e3o foi orientada pelo impacto do envelhecimento: eu n\u00e3o conseguia unir as duas pontas separadas pelo rigor do tempo.<\/p>\n<p>Odete Lara desmentiu-me a impress\u00e3o inaugural. Ela foi crescendo na entrevista. Adquiriu novos contornos est\u00e9ticos em profunda sintonia com a dimens\u00e3o \u00e9tica de uma bela vida. Fui, ao lado da minha companheira Vera, deixando-me seduzir pelos novos encantos da grande dama: intelig\u00eancia, sensibilidade, humor. Sempre sedutora, Vera e eu concordamos. Surpreendeu-nos a extens\u00e3o de seus conhecimentos, participante atenta e ativa da \u201cgrande prosa do mundo\u201d. Tocou-nos a sua serena e amorosa percep\u00e7\u00e3o das pessoas. Nada perdera do brilho esperto dos olhos. Tornou-se budista num plano superior, longe dos dogmas e sectarismos. Na parede de sua casa, uma superposi\u00e7\u00e3o de fotos na qual Gandhi \u00e9 o destaque. \u00a0Distingui, entre muitos, Thomas Merton e Vin\u00edcius de Moraes. Se n\u00e3o vi, pressenti: Glauber Rocha, Oduvaldo Viana Filho, o imenso Vianinha, Baden Powell, Tom Jobim.<\/p>\n<p>Odete fala da morte como fala da vida: com do\u00e7ura. Nenhuma amargura ou saudosismo, mas o prazer de ter sido o que foi, de ser o que \u00e9. Seu desejo \u00e9 reencontrar e cantar com Vin\u00edcius de Moraes e Baden Powell. Se viveu o Cinema Novo foi tamb\u00e9m forte presen\u00e7a na Bossa Nova. Nara Le\u00e3o foi uma amiga inesquec\u00edvel. Fala dela como se as duas estivessem conversando.<\/p>\n<p>Fomos nos deixando levar por aquela conversa boa, generosa, iluminada. O encanto se apossou de n\u00f3s e, com ele, a emo\u00e7\u00e3o. Quando terminou a entrevista-depoimento, enxugamos l\u00e1grimas emotivas e discretas. Odete havia nos dado uma boa aula: \u00e9 poss\u00edvel envelhecer com dignidade, alegria e, sobretudo, amor. Amor \u00e0s amigas e amigos, amor \u00e0 vida e \u00e0 humanidade sem arroubos, num tom de quem sabe das fraquezas humanas, superando-as na compaix\u00e3o. Fala com carinho do Brasil e da nossa gente. Expande luz; alcan\u00e7ou a paz. Assim nos pareceu. Longa vida para os que envelhecem crescendo em sabedoria. Longa vida para Odete Lara!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na revista Encontro, edi\u00e7\u00e3o de maio\/2012 Patrus Ananias Depois de longos anos reencontrei Odete Lara. Inicialmente levei um susto. 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