{"id":1076,"date":"2015-08-21T19:23:22","date_gmt":"2015-08-21T22:23:22","guid":{"rendered":"http:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/?p=1076"},"modified":"2022-08-31T11:33:33","modified_gmt":"2022-08-31T14:33:33","slug":"residencia-agraria-conhecimento-que-brota-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/patrusananias.com.br\/blog\/residencia-agraria-conhecimento-que-brota-do-campo\/","title":{"rendered":"Resid\u00eancia agr\u00e1ria,  conhecimento que brota do campo"},"content":{"rendered":"<p>Na ter\u00e7a, dia 11 de agosto, tive a honra de participar da abertura do <strong>Congresso Nacional de Resid\u00eancia Agr\u00e1ria<\/strong>, em <strong>Bras\u00edlia<\/strong>. O encontro re\u00fane universidades, movimentos sociais, assentados da reforma agr\u00e1ria e t\u00e9cnicos de Ater (Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural), al\u00e9m dos alunos, claro, para debater a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no campo. H\u00e1, ainda, graduados em cursos superiores que tenham feito est\u00e1gio, pesquisa ou extens\u00e3o em assentamentos.<!--more--><\/p>\n<p>Os cursos s\u00e3o promovidos em <strong>parceria pelo Incra, pelo CNPq e pelo MDA<\/strong>.<\/p>\n<p>Confesso que foi uma surpresa para mim. Eu fui at\u00e9 o Congresso pensando que era uma coisa menor, uma coisa mais restrita. E n\u00e3o algo daquela dimens\u00e3o, muito bonita, e tamb\u00e9m muito celebradora e anunciadora. Logo no come\u00e7o, antes das falas, chamou minha aten\u00e7\u00e3o o entusiasmo com que alunos e professores entoavam refr\u00f5es, interpretavam can\u00e7\u00f5es e encenavam esquetes. Registrei um dos gritos que motivavam todos para o encontro que duraria cinco dias: &#8220;Se o campo n\u00e3o planta, a cidade n\u00e3o janta&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Registrei um dos gritos<\/em><br \/>\n<em> que motivavam todos<\/em><br \/>\n<em> para o encontro\u00e0 pobreza dias:<\/em><br \/>\n<em> &#8220;Se o campo n\u00e3o planta, a cidade n\u00e3o janta&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Ouvi todos que me antecederam com muito interesse, mas a educanda Adriana Fernandes de Sousa, da UnB, a Universidade de Bras\u00edlia, disse algo que refor\u00e7ou meu compromisso com a educa\u00e7\u00e3o no campo: &#8220;Em qual curso nas universidades estudar\u00edamos agroecologia?&#8221;. Adriana n\u00e3o respondeu \u00e0 pr\u00f3pria pergunta. N\u00e3o precisava. Todos ali sabiam que a resid\u00eancia agr\u00e1ria tem entre seus fundamentos promover a alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o, direito fundamental<\/strong><\/p>\n<p>Um pa\u00eds, uma p\u00e1tria que acolhe todos os seus filhos e filhas pressup\u00f5e o conhecimento, pressup\u00f5e educa\u00e7\u00e3o. E a educa\u00e7\u00e3o tem uma caracter\u00edstica muito pr\u00f3pria, pois ao mesmo tempo que \u00e9 um direito fundamental, \u00e9 um bem da comunidade. N\u00e3o podemos pensar na constru\u00e7\u00e3o de um processo emancipat\u00f3rio, na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds soberano, economicamente forte, socialmente justo, saud\u00e1vel do ponto vista ambiental sem educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos pensar no processo de desenvolvimento sem essa base fundamental que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o integral, integrada e sustent\u00e1vel de um pa\u00eds. E aqui falo de desenvolvimento pol\u00edtico, da consolida\u00e7\u00e3o da democracia, da pol\u00edtica como servi\u00e7o, da \u00e9tica na pol\u00edtica, do desenvolvimento econ\u00f4mico, social, ambiental, cultural. O desenvolvimento tamb\u00e9m no campo dos valores. Eu ouso dizer: do desenvolvimento \u00e9tico e espiritual, da dimens\u00e3o interior de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>N\u00e3o podemos pensar no<\/em><br \/>\n<em> processo de desenvolvimento<\/em><br \/>\n<em> sem essa base fundamental que \u00e9 a<\/em><br \/>\n<em> educa\u00e7\u00e3o integral, integrada e sustent\u00e1vel de um pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><strong>Combate \u00e0 pobreza<\/strong><\/p>\n<p>Outro preceito importante que apregoo como professor que sou &#8211; desde 1979, leciono Direito na PUC-MG &#8211; \u00e9 o combate \u00e0 pobreza. N\u00e3o existe educa\u00e7\u00e3o sem combate \u00e0 pobreza. Crian\u00e7a n\u00e3o aprende sem sa\u00fade, sem alimenta\u00e7\u00e3o, sem ter comida. E sa\u00fade pressup\u00f5e o direito humano por alimenta\u00e7\u00e3o adequada, com regularidade, quantidade, qualidade. Pressup\u00f5e \u00e1gua pot\u00e1vel, saneamento b\u00e1sico, moradia digna.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m interliga\u00e7\u00e3o, uma complementaridade entre os direitos, especialmente no campo dos direitos sociais, econ\u00f4micos e culturais. Direitos esses que efetivamente promovem o desenvolvimento das fam\u00edlias, dos grupos, das classes sociais, das comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Crian\u00e7a n\u00e3o aprende sem sa\u00fade,<\/em><br \/>\n<em> sem alimenta\u00e7\u00e3o, sem ter comida.<\/em><\/p>\n<p><strong>Alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>Igualmente para enfrentar os grandes desafios que temos hoje \u00e9 preciso educa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, como j\u00e1 citei antes, \u00e9 preciso agroecologia. Precisamos produzir alimentos que gerem sa\u00fade e vida para as pessoas, e n\u00e3o alimentos envenenados que produzem a doen\u00e7a, a morte das pessoas. Temos que discutir com a sociedade como produzir em quantidade e tamb\u00e9m com qualidade para garantir a sustentabilidade das fam\u00edlias e a seguran\u00e7a alimentar e nutricional do provo brasileiro. E isto \u00e9 tarefa para pesquisa.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e ainda compromissos c\u00edvicos, quer dizer, compromisso com o estado democr\u00e1tico de direito, com a constru\u00e7\u00e3o efetiva dos deveres e direitos da cidadania.<\/p>\n<p><strong>Reformas agr\u00e1ria, urbana e tribut\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Por tudo isso \u00e9 preciso envolver a sociedade nesse debate. A sociedade que pensa ajuda o sistema escolar. Ent\u00e3o, temos que incentivar a reflex\u00e3o na nossa sociedade e promover o encontro dela com a escola.<\/p>\n<p>Claro, diante de uma plateia qualificada como aquela, n\u00e3o deixei de repetir meu mantra: reforma agr\u00e1ria. Com o respaldo da presidente Dilma Rousseff vamos mobilizar todos nossos esfor\u00e7os para assentarmos, at\u00e9 2018, quando acaba o mandado presidencial, conforme decidiram as urnas em 2014, todas as fam\u00edlias acampadas no Brasil. Esse compromisso, do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, do Incra, do Governo Federal, faz parte da nossa hist\u00f3ria. E vamos faz\u00ea-la mesmo contra aqueles que acham que esse \u00e9 um assunto superado, atrasado. A reforma agr\u00e1ria \u00e9 nosso desejo, nossa vontade, e est\u00e1 em sintonia com as diretrizes estabelecidas pela presidenta da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Agora, para assentar as milhares de fam\u00edlias de agricultoras e agricultores espalhados pelos rinc\u00f5es deste pa\u00eds n\u00f3s temos uma trava: colocar em pr\u00e1tica a fun\u00e7\u00e3o social da terra, da propriedade e das riquezas, como claramente estabelecido em nossa Constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, promulgada em 5 de outubro de 1988. \u00c9 preciso que deixem de ser letra morta de nossa Carta Magna as reformas agr\u00e1ria, urbana e tribut\u00e1ria. As tr\u00eas reformas est\u00e3o interligadas por que incidem sobre a propriedade e a riqueza.<\/p>\n<p>Para que ganhem vida as reformas, \u00e9 preciso estabelecer impostos que penalizem aqueles que podem pagar mais, dentro de uma l\u00f3gica que eu apliquei l\u00e1 em Belo Horizonte, quando fui prefeito da capital dos mineiros. Hoje, o que acontece nas cidades \u00e9 uma perversidade, onde a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria se sobrep\u00f5e ao direito \u00e0 moradia. Temos que mudar isto.<\/p>\n<p><strong>Papa Francisco<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 hora, portanto, de dar um passo \u00e0 frente e, escudados nas grandes conquistas, buscarmos novos grandes avan\u00e7os. E o direito \u00e0 terra, lembremos, remonta \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s. Assim, n\u00e3o podemos submeter os interesses coletivos aos de um propriet\u00e1rio, como foi um caso de um fazendeiro que eu conheci l\u00e1 em Minas Gerais. Depois que ele interrompeu um curso d&#8217;\u00e1gua prejudicando vizinhos pobres nas circunvizinhan\u00e7as, fui at\u00e9 ele como advogado dos pequenos propriet\u00e1rios. Ele me disse sem rodeios: &#8220;Doutor, o rio passa nas minhas terras, portanto, a \u00e1gua \u00e9 minha&#8221;.<\/p>\n<p>Ora, a propriedade n\u00e3o \u00e9 um direito absoluto. Ele deve estar subordinado \u00e0s exig\u00eancias superiores do direito \u00e0 vida, do bem comum, da dignidade humana, do interesse coletivo.<\/p>\n<p>Mas, como um professor n\u00e3o \u00e9 formado para levar desalento aos seus alunos, lembro que, agora, conseguimos um aliado important\u00edssimo: o Papa Francisco. Em sua \u00faltima enc\u00edclica &#8211; Laudato Si (Louvado Seja) -, Francisco escreveu tudo isto que eu disse aos alunos da Resid\u00eancia Agr\u00e1ria, s\u00f3 que de forma mais radical e mais jeitosa. Segundo ensinou, determinados bens transcendem os direitos individuais e s\u00e3o bens coletivos, bens socais.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Segundo ensinou o Papa Francisco,<\/em><br \/>\n<em> determinados bens transcendem<\/em><br \/>\n<em> os direitos individuais e s\u00e3o bens coletivos, bens socais.<\/em><\/p>\n<p>Estamos muito bem acompanhados em nossa grande empreitada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ter\u00e7a, dia 11 de agosto, tive a honra de participar da abertura do Congresso Nacional de Resid\u00eancia Agr\u00e1ria, em Bras\u00edlia. O encontro re\u00fane universidades, movimentos sociais, assentados da reforma agr\u00e1ria e t\u00e9cnicos de Ater (Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural), al\u00e9m dos alunos, claro, para debater a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no campo. 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