MINERAÇÃO, AQUI NÃO! Patrus no 1º Fórum das Águas de Belisário, em Muriaé-MG

Temos que refletir sobre a insensatez humana em relação à natureza. Nós recebemos de graça o ar que respiramos; recebemos de graça a terra sobre a qual nos movimentamos, nos erguemos, edificamos nossas casas, nossas cidades e tiramos nosso sustento. Não satisfeitos, ao invés de aproveitarmos bem, estamos envenenando o ar, a terra e a água.

Em nosso país, a discussão da preservação ambiental passa pela função social da terra e da água. Teoricamente, a água é um bem público e está vinculada à terra, que é vista no Brasil como um bem privado, sem limites. O direito de propriedade no Brasil é do século XIX. É o direito de ter, usar e abusar.

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Para preservar a água, esse bem sagrado, temos que preservar a terra. O direito de propriedade não pode ser absoluto, tem que estar adequado às exigências do bem comum, do interesse coletivo e público, o direito de propriedade tem limites em relação a essas exigências.

Essas foram algumas reflexões que coloquei para os participantes do 1º Fórum das Águas de Belisário, distrito de Muriaé, na Zona da Mata mineira. Realizado no último final de semana, o Fórum reuniu dezenas de representantes de movimentos sociais, ambientalistas, líderes da Igreja e a comunidade de Belisário e entorno para discutir os impactos da mineração no meio ambiente.

A primeira edição do Fórum aconteceu após uma conquista histórica da comunidade. O reconhecimento de uma área de 10 mil hectares (10 mil campos de futebol), com uma estimativa de abrigar duas mil nascentes, como Patrimônio Hídrico Municipal de Muriaé (Lei Municipal 5.763), em novembro de 2018.

A área está na sub-bacia do rio Muriaé, um dos afluentes do rio Paraíba do Sul, abrange o distrito de Belisário e chega aos limites de Muriaé com Miradouro, Ervália e Rosário da Limeira. A região possui ainda o Parque Estadual Serra Brigadeiro, o Parque Municipal do Itajuru, as Áreas de Proteção Ambiental Municipal Pico do Itajurú, Araponga, Fervedouro e Reservas Particulares do Patrimônio Natural, em Araponga.

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No território da Serra do Brigadeiro, rico em bauxita, diversas organizações atuam na resistência à expansão de projetos de mineração e a mobilização social já deu sua resposta. Mineração, aqui não!

Sobre “Maquinação do Mundo: Drummond e a mineração”

Encerrei nos últimos dias a leitura de “Maquinação do Mundo: Drummond e a mineração”, de José Miguel Wisnik. Buscando os elos entre a história da mineração e a obra de nosso Carlos Drummond de Andrade, Wisnik constrói uma obra com alta dimensão ensaística que carrega também uma denúncia muito séria – a operação desmonte que a empresa Vale, então Vale do Rio Doce, fez na região de Itabira, terra natal do escritor. Uma referência geográfica muito cara a Drummond, o pico do Cauê, desapareceu pela exploração mineral. Foi cortado para extração de minério de ferro pela Vale do Rio Doce.
O livro traz reflexões muito instigantes sobre a obra de Carlos Drummond, mas a dimensão de denúncia é inegável. Foi lançado em 2018, ainda antes do crime da Vale em Brumadinho.
Há alguns anos, cheguei a Itabira de helicóptero para um compromisso e pude ver o estrago que aconteceu ali, as grandes paisagens devastadas pela ação humana. O mesmo acontece na serra do Curral, que depois de tão escavada e explorada guarda apenas a casca do que foi um dia, com impacto no equilíbrio natural e no clima de Belo Horizonte e de toda a região no entorno.
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A tragédia humana e ambiental que ocorreu agora em Brumadinho, antes em Mariana, precisa levar a uma reflexão séria, a um debate com a sociedade, considerando a questão econômica mas também as consequências humanas, ambientais, os lugares da memória e da história que são afetados e por vezes destruídos e apagados pela mineração. Uma discussão que envolva a sociedade – as universidades, escolas, igrejas, a sociedade civil organizada, o poder público. É uma discussão permanente que precisa ser ampliada, pois há décadas Drummond já assumia parte dessa denúncia em sua obra.