Com iniciativa de Patrus, parlamentares do PT debatem conjuntura mineira

A minha iniciativa, conversar sobre a conjuntura mineira sem perder de vista o cenário nacional, foi muito bem acolhida pelas candidaturas à deputado estadual, com as quais fiz parceria durante a campanha eleitoral de 2018.

A fragilidade fiscal e a incapacidade do governo mineiro — quadro agravado pelo crime da Vale, em Brumadinho, que expõe o esgotamento desse modelo de mineração, associada à opção, já anunciada, pelo governador Zema em aderir ao programa de ajuste fiscal do governo federal — apontam inevitavelmente para a privatização da Cemig e da Copasa, além, é claro, do congelamento do salário dos servidores públicos.

Nesse cenário desafiador, entre um governo estadual omisso e um governo federal que ataca diariamente direitos constitucionais, conquistas históricas de segmentos mais vulneráveis da sociedade, as forças sociais comprometidas com a democracia e a justiça social precisam buscar a unidade e rechaçar propostas como as reformas previdenciária e trabalhista e, mais do que nunca, lutar pela defesa do patrimônio público e pela soberania do Brasil.

Mais do que derrotar as propostas que levam o povo brasileiro de volta ao século XIX, vamos construir uma agenda de enfrentamento que preserve o Estado Democrático de Direito que certamente passa pelo diálogo com os mais diversos setores da sociedade para a construção de um projeto nacional.

O encontro, o 1º de muitos que pretendo fazer, realizado na última segunda (1º), em Belo Horizonte, contou com a participação de deputados estaduais do PT, Betão Leninha e André Quintão; o vereador Pedro Patrus e militantes históricos; a ex-secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo; a ex-deputada e ex-prefeita de Betim, Maria do Carmo Lara; a ex-deputada Geiza Teixeira, a diretora de Políticas Sociais e Previdência da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg), Maria Alves e Leleco Pimentel; todos eles candidatos na última eleição.

Também presentes o assessor da deputada Marília Campos, André Teixeira; o assessor do deputado André Quintão, Wagner Caetano; a assessora do Betão, Sumara Ribeiro; o sindicalista Guido Coutinho; o assessor de Pedro Patrus, Eugênio Pasqualini; a secretária Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania de BH, Maíra Colares; e o assessor da deputada Leninha, Allan Silveira.

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Crime da Vale em Brumadinho: Vale do Paraopeba é prioridade

Motivado por compreender melhor o processo que se instalou em Brumadinho, que começou bem antes do rompimento da Barragem da Mina do Feijão, em 25 de janeiro, e que se estende para um cenário de muitas lutas para assegurar os direitos básicos da população atingida, estive na cidade, onde tive a oportunidade de escutar moradores e lideranças.

Do bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte e referencial para o Vale do Paraopeba, Dom Vicente Ferreira, tomo emprestado a classificação de Brumadinho como uma metáfora da atual conjuntura, de local a global. Acrescento que o crime cometido pela Vale e o modelo implantado é a expansão de negócios sem limites. Não tenho dúvidas de que a questão política está subordinada à questão econômica.

O relato do Padre René Lopes, pároco da Igreja de São Judas Tadeu, destacou o esforço de integrantes da igreja e voluntários, religiosos e não religiosos, de diversas partes do país em dar conforto, apoio, alimentação e, em parceria com a PUC-MG, assistência jurídica às centenas de famílias atingidas. Este esforço já contabilizou 700 famílias atendidas espiritual e socialmente.

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Famílias como as da comunidade do Parque da Cachoeira, com metade das propriedades e muitas vidas arrastadas pela lama, que hoje têm na Igreja de São Judas Tadeu o referencial para seguir em frente. Neste local, a Arquidiocese de BH montou a central de distribuição de doações e alimentação.

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Encontrei velhos conhecidos, como o Seu Romeu, taxista em Belo Horizonte por décadas, e que escolheu viver ali, após se aposentar. O local que antes ficava sua casa, fruto do trabalho como motorista, abaixo de metros de lama, está marcado por um tronco retorcido.

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Solidarizei-me com o pai, Carlos Antônio, funcionário da Vale, que conseguiu se salvar, fugindo em disparada na camionete que dirigia, mas não pode levar consigo o filho, também funcionário da empresa.

A preocupação com o futuro econômico do município foi externada pelo secretário de obras, Alcimar Barcelos e como fiz nos momentos anteriores, momentos de escuta, afirmei o compromisso do mandato em somar esforços.

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Encerrei a visita no Acampamento Pátria Livre, do outro lado do Paraopeba e já em São Joaquim de Bicas. Cerca de 400 famílias, já foram mil, foram impactadas, já que a água do rio servia para irrigar a horta e para os animais.

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Com o rio morto a única opção foi buscar água em uma nascente que corta o terreno. E lá a questão é mais complexa pois uma exigência da empresa para prestar atendimento aos atingidos é mediante a apresentação de um comprovante de endereço. “Queremos ser reconhecidos como atingidos”, disse Cristiano, um dos dirigentes do movimento.

Percorri o acampamento, recentemente beneficiado pelo Programa de Segurança Alimentar (PSA), um plano emergencial resultado do diálogo entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Cáritas Brasileira Regional MG e a extinta Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese), com a entrega de kits horta, apicultura e pintainhas.

Com menos dois anos de implantação, o acampamento possui uma escola, que já contou com 300 alunos em 2018, oferece educação infantil completa, alfabetização para adultos, possui biblioteca, refeitório e um projeto de horta, hoje com futuro incerto. Inaugurada em maio do ano passado a escola conta com a parceria da Fundação Helena Antipoff para oferecer uma educação de qualidade.

Minha presença efetiva em Brumadinho se torna um compromisso, o Vale do Paraopeba se torna uma prioridade do mandato, pois o discurso que se anuncia, que assistimos se constituir, é o de preservação da empresa, o que é assustador, perante a tragédia humana e ambiental.

Não se sabe realmente quantas pessoas foram mortas. Encerro minha visita de compromisso em Brumadinho com a certeza de que nossa luta é pelos mais pobres, por aqueles que estão sendo expropriados de seu direito mais básico, o direito à vida.

Sobre “Maquinação do Mundo: Drummond e a mineração”

Encerrei nos últimos dias a leitura de “Maquinação do Mundo: Drummond e a mineração”, de José Miguel Wisnik. Buscando os elos entre a história da mineração e a obra de nosso Carlos Drummond de Andrade, Wisnik constrói uma obra com alta dimensão ensaística que carrega também uma denúncia muito séria – a operação desmonte que a empresa Vale, então Vale do Rio Doce, fez na região de Itabira, terra natal do escritor. Uma referência geográfica muito cara a Drummond, o pico do Cauê, desapareceu pela exploração mineral. Foi cortado para extração de minério de ferro pela Vale do Rio Doce.
O livro traz reflexões muito instigantes sobre a obra de Carlos Drummond, mas a dimensão de denúncia é inegável. Foi lançado em 2018, ainda antes do crime da Vale em Brumadinho.
Há alguns anos, cheguei a Itabira de helicóptero para um compromisso e pude ver o estrago que aconteceu ali, as grandes paisagens devastadas pela ação humana. O mesmo acontece na serra do Curral, que depois de tão escavada e explorada guarda apenas a casca do que foi um dia, com impacto no equilíbrio natural e no clima de Belo Horizonte e de toda a região no entorno.
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A tragédia humana e ambiental que ocorreu agora em Brumadinho, antes em Mariana, precisa levar a uma reflexão séria, a um debate com a sociedade, considerando a questão econômica mas também as consequências humanas, ambientais, os lugares da memória e da história que são afetados e por vezes destruídos e apagados pela mineração. Uma discussão que envolva a sociedade – as universidades, escolas, igrejas, a sociedade civil organizada, o poder público. É uma discussão permanente que precisa ser ampliada, pois há décadas Drummond já assumia parte dessa denúncia em sua obra.

O Lucro ou a Vida?

por Patrus Ananias

Quando nos encontramos em um momento triste e grave de refletir sobre a preservação da vida, do meio ambiente compartilhado e também sobre a defesa dos direitos daqueles mais fragilizados, exigimos a ação e a responsabilidade do Estado, para garantir o cumprimento dos direitos e a penalização daqueles que são explicitamente culpados. Exigimos a presença do Estado, com plena razão.

Porém, corre em nossa sociedade a percepção de que a privatização, a entrega dos bens nacionais à iniciativa privada, é capaz de tornar tudo melhor. Mas qual o compromisso primordial da iniciativa privada, o lucro ou o bem comum? Os acionistas ou a preservação da vida? O ganho máximo ou a preservação do meio ambiente para as gerações futuras? Existe aí uma contradição insolúvel.

As empresas desejam o lucro maximizado e o que observamos no Brasil é a presença ampla de um capitalismo selvagem. Um capitalismo que avança sobre a vida dos trabalhadores e daqueles que não têm maneiras de se defender contra a força concentrada do capital. A iniciativa privada ultrapassa suas metas e exporta suas realizações, sem preocupações com desenvolvimento sustentado – exceto aquelas que são impostas pelo Estado.

O compromisso com o bem comum, com a preservação da vida e com um projeto de nação são responsabilidades do Estado Democrático. O Estado é o único capaz de garantir metas de longo prazo para o futuro de um país, no sentido de integrar as várias dimensões da vida – econômica, política, cultural, ambiental. Integrar as dimensões da vida buscando a superação de desigualdades e o compartilhamento efetivo de um bem comum, em um país que garanta oportunidades e defenda a vida.

Se aceitamos a economia de mercado, se aceitamos o empreendedorismo como forma de avanço econômico, isso deve estar sempre subordinado ao Direito à vida. Organizamo-nos em sociedade, em primeiro lugar, para garantir um conjunto de direitos e deveres que preservam a vida.

As tragédias de Mariana e de Brumadinho impõem a necessidade de refletir sobre os limites que devem pairar sobre a iniciativa privada. A iniciativa privada deve estar subordinada à garantia dos direitos, ao bem comum, à justiça social e ao projeto de nação que queremos para o Brasil.