Paredão da Cultura debate resistência política e cultural na Pedreira Prado Lopes

O lançamento do Paredão da Cultura, a segunda edição do Projeto Democracia na Laje, reuniu líderes comunitários e religiosos, artistas, mães e jovens, no último sábado (14/12), na rua João Carvalhais de Paiva, na Pedreira Prado Lopes, região noroeste de Belo Horizonte.

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As dificuldades de acesso às políticas públicas, especialmente na área cultural, o crescente número de pessoas em situação de rua, a discriminação sofrida pela comunidade da PPL e a especulação imobiliária foram os temas que dominaram a roda de conversa, primeira atividade do Paredão da Cultura.

Com o título “Respeita as mina, as mona e os mano”, temática escolhida pelos moradores da Pedreira, a roda de conversa permitiu reconhecer o território como espaço de inclusão. “O Leão sempre acolheu o público LGBT, basta dizer que tudo começou com o desfile e brincadeiras de carnaval com os homens vestidos de mulheres”, comentou o presidente do bloco, Jairo Nascimento Moreira.

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O Leão, fundado em 1947, é o mais antigo bloco da cidade, e apesar da tradição e da resistência, têm encontrado dificuldades para acessar os recursos públicos municipais. Assim como outros moradores presentes, Jairo teme que os chamados projetos de revitalização da Lagoinha, que não escutam e não traduzem os sentimentos e desejos da comunidade, sirvam à especulação imobiliária. “Há projetos em curso, que abordam a questão cultural e patrimonial, mas não os conhecemos”, disse.

A atriz Cida Barcelos e idealizadora do “Quintal do Sô Antônio” reforça a denúncia. “Sei que tem um projeto em cima dos quintais, mas não conheço. O que eu encaminhei mesmo, foi desclassificado”, falou. A iniciativa de Cida e de moradores voluntários ganhou o mundo, mas não deu retorno para eles. “As verbas públicas não chegam para os artistas da Lagoinha. O Projeto Geni foi desclassificado. Eu tenho um sonho, atravessar a Antônio Carlos e trabalhar aqui. Queria que os ‘quintais’ se ampliassem por toda a cidade, chegassem até Confins e empregassem os moradores de rua, aqueles que querem uma oportunidade, que querem trabalhar”, completou Cida.

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O Quintal do Sô Antônio é a primeira horta implantada pelo coletivo “Hortelões da Lagoinha”. É uma ocupação criativa da cidade por meio da agroecologia e se tornou um espaço educativo e acolhedor onde se planta ervas, temperos, legumes, folhas, frutas e saberes. Foi inaugurado em setembro de 2018, na rua Francisco Soucasseaux, nº: 8, ao lado da Av. Antônio Carlos, via que liga o centro da cidade à Pampulha.

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A Casa de Caridade do Pai Jacob do Oriente, importante instituição presente na Lagoinha há 60 anos, contribuiu para a criação do “Quintal do Sô Antônio” com os saberes e costumes tradicionais do povo de axé. O zelador da casa, Pai Ricardo também participou da roda de conversa do Paredão da Cultura e enfatizou a importância histórica da região.

“A Lagoinha é a menina dos olhos, todos os caminhos de Belo Horizonte começam aqui, na Praça Vaz de Melo”, enfatizou o líder religioso. “A gente requisita o que é direito nosso, tem gente usando a nossa história e eles vão forçar a gente a migrar da Lagoinha”, disse Pai Ricardo, traduzindo a angústia comum a todos. Pai Ricardo dirige a Casa que há 60 anos resiste por meio da prática de tradições religiosas e culturais, heranças africanas, além de intermediar conflitos e assistir os mais vulneráveis com remédios e alimentação. 

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Uma das mães presentes, Dona Cirlânia Cristina, relatou a dificuldade que a comunidade tem de acessar a Avenida Antônio Carlos, após o fechamento de uma passagem existente atrás do Hospital Odilon Beherens e ainda do constrangimento sofrido pelos jovens. “Os jovens daqui  reclamam que sempre que promovem alguma festa, a polícia chega e acaba com tudo. Meus filhos já passaram por isto, e não foi só em festa, apenas por transitar na Pedreira”, disse.

Algumas conquistas da comunidade também foram relatadas. A criação, em setembro, do Comitê Colegiado e Patrimonial da Lagoinha. “Estamos finalizando o estatuto”, informou Jairo. E ainda a proposta, no momento em análise pelo Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), de tombamento de O Leão da Lagoinha, como patrimônio cultural imaterial, pode gerar bons resultados.

Para o vereador Pedro Patrus, também presente no lançamento, o caminho já percorrido pela comunidade, a recente criação do Colegiado, está correto. “Este coletivo pode fazer mais, estabelecer uma rede de parcerias, inclusive registro meu compromisso e do mandato do deputado Patrus Ananias, em contribuir neste processo. “, disse o vereador. “A Lagoinha é uma região nobre, tem muita gente interessada. Sabemos que é a especulação imobiliária que manda na cidade, mas não podemos permitir o isolamento da Pedreira. A PPL e a Lagoinha são uma coisa só”, concluiu o vereador.

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Democracia na Laje

A segunda edição do Projeto Democracia na Laje – Paredão da Cultura surgiu do interesse de moradores da Rua Doutor João Carvalhais de Paiva, uma rua sem saída, dominada por muros de arrimo, em transformá-la em um ponto de cultura. A proposta inclui a realização de atividades culturais permanentes no local e para colocar em prática, após a roda de conversa, foi tirada uma comissão para dar sequência aos trabalhos.

O projeto Democracia na Laje veio para mobilizar e promover a formação política em Periferias de BH e é uma iniciativa conjunta dos mandatos do deputado Patrus Ananias e do vereador Pedro Patrus. A primeira edição do projeto, Nas Quebradas do Taquaril, foi finalizada com uma roda de conversa, realizada em 5 de outubro, após a participação de 15 jovens em oficina de pintura, conduzida pelo arte educador Lucas Alfa. A iniciativa buscou o olhar dos meninos e meninas sobre o próprio território e resultou em imagens que retratam paisagens vistas da janela, caminhos percorridos, cenas cotidianas, pontos estratégicos na vida de cada um.

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