Minas mandou dizer que não tem dono

O Estado de Minas Gerais resiste às tentativas de dominação que as lideranças regionais do PSDB estão tentando implantar. Na avaliação de Patrus Ananias, esse foi um dos principais recados que os mineiros e mineiras deram nesta última eleição. O ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em entrevista aos jornalistas Ana Paola Amorim, Gabriella Gualberto e Paulo Barcala, fez um balanço positivo do desempenho do PT e das forças de esquerda no Estado: em Belo Horizonte, sua candidatura serviu como um divisor de águas políticas e ajudou a fortalecer o PT; o partido aumentou sua votação no Estado e venceu em 26 das 50 maiores cidades; o PSDB encolheu e se esforçou para camuflar esse encolhimento com as alianças mais díspares nos lugares em que foi derrotado no primeiro turno.

Para o PT, Patrus avalia que o recado foi dado em forma de desafio, instando o partido a se preparar para as eleições de 2014. O combustível vem também desta eleição, com uma vigorosa contribuição de Belo Horizonte no processo de retomada da militância. “Recuperamos em grande parte a nossa militância histórica (…), incorporamos também muita gente nova, os jovens que aderiram com entusiasmo à campanha. É claro que esse processo tem que continuar”, disse Patrus.

Blog: Como você avalia o resultado das eleições 2012?

Patrus: O primeiro aspecto da leitura que faço é que se encerrou um ciclo, o ciclo da estranhíssima aliança entre o PT e o PSDB em BH. Historicamente, esse território confuso, a dissolução das fronteiras partidárias em Minas, teve um momento de destaque em 2002. Naquele ano, o então governador Itamar Franco apoiou Lula presidente e Aécio governador, criando um espaço comum de apoio aos dois candidatos para outras lideranças e partidos, inclusive em detrimento de uma candidatura que naquele momento estava em ascensão, que era a do nosso companheiro Nilmário Miranda. O então governador de Minas tinha um peso muito grande, ex-presidente da República, enfim, a posição dele sinalizou para muitos outros. Em 2006 o processo de apoio comum a Lula e Aécio voltou, também pelo fato de que vários partidos integravam simultaneamente as bases do governo federal e estadual.

O ano de 2008, no entanto, trouxe uma característica nova, foi o momento em que o PT abriu mão da prefeitura e a aliança com o PSDB se manifestou formalmente, mediada pelo PSB. O que ocorreu em 2002 e 2006 foi à revelia do PT. Nesses pleitos nós tínhamos candidato, disputamos as eleições. Em 2008, por decisão majoritária o partido optou por se coligar ao PSB, com o apoio explícito do PSDB. Eu penso que ai o PT perdeu muito, perdeu sua cara, sua identidade em BH.

Então o que acontece de importante em 2012 é essa ruptura, que me parece definitiva, um divisor de águas, no sentido de deixar claro que dois projetos disputam a hegemonia no Brasil pelo menos desde 1994. Não é uma questão subjetiva, é objetiva: são projetos diferentes, e a base dessa diferença é social. Quem colocou a questão social no campo das políticas públicas, com recursos, com criação de ministério, com estrutura foi o governo do presidente Lula. Basta lembrar o Bolsa Família, os recursos do MDS, as multidões que deixaram a pobreza, o enorme contingente que ascendeu à classe média. Outra diferença fundamental é o papel do Estado, que adquire perspectiva, estabelece diretrizes, induz o desenvolvimento e se manifesta também no campo das políticas sociais.

Então essa linha divisória entre dois projetos também se define em BH. A partir de agora o governo municipal, além da persistente oposição não-institucional de movimentos como o Fora Lacerda e outros, que já existiam, passa a ter também uma oposição institucional. E é importante dizer que essa divisão ficou clara para todo o estado de Minas Gerais.

Blog: Você disse, no discurso após o resultado eleitoral, que nem sempre as vitórias políticas coincidem com as eleitorais…

Patrus: Não custa lembrar que obtivemos nada menos que 40% dos votos em escassos três meses de campanha. Além disso, há esse divisor de águas ao qual me referi, de mostrarmos novamente nossa identidade, por si uma vitória muito importante. Nossa campanha representou um resgate do campo democrático-popular, uma retomada do PT em BH. Tivemos ainda outra conquista vital: possibilitamos que nas eleições houvesse algum debate sobre a cidade. Se continuasse aquele quadro iniciado em 2008, nosso adversário seria simplesmente homologado.

Nossa participação exigiu que ele fosse, se não a todos, pelo menos a alguns confrontos.  O fato é que o adversário terminou fazendo promessas que dificilmente serão cumpridas, distantes que estão da realidade do município. Nesses embates, chegou a incorporar nosso discurso e a repetir nossas palavras, nossas prioridades políticas e até existenciais.

Mas nós temos nas mãos o programa dele, e vamos cobrar uma a uma as promessas, junto com o povo de Belo Horizonte, pois felizmente é passado o tempo em que se podia brincar impunemente com os desejos e necessidades da população. Há um compromisso da minha parte de continuar, de não deixar se perder o que ganhamos no processo eleitoral.

Blog: Para o PT esse divisor de águas também é fato consumado? Como o partido vai se estruturar para a nova fase?

Patrus: Eu acho que a gente pode dizer que o partido se recompôs em BH, na perspectiva da sua unidade, da sua coesão. É claro que o PT é um partido amplo, democrático, plural, então nós sempre vamos ter conflitos internos, mas a campanha objetivamente colocou o PT num outro patamar em BH. Penso que depois de todo esse processo penoso, que vem no mínimo desde 2002, começamos a viver um reencontro do PT com a cidade. Temos que valorizar muito isso: nós recuperamos em grande parte a nossa militância histórica, gente que tirou a bandeira do fundo do baú, espanou a poeira da estrela e veio para a rua. Incorporamos também muita gente nova, os jovens que aderiram com entusiasmo à campanha. É claro que esse processo tem que continuar.

Digo que o PT precisa buscar uma interlocução mais ativa com a sociedade, com os movimentos sociais e demais setores, universidades, igrejas, empresários conscientes e outros partidos de esquerda, além de manter e aprofundar o diálogo com os partidos que estiveram conosco durante a eleição: PMDB, PCdoB, PRTB, PSD e o autêntico PSB. Qual é a nossa intenção daqui pra frente? Mostrar a cara e a força política do campo democrático-popular.

Temos diversos outros desafios. Um é extrair conclusões do fato de que quase 30% da cidade optaram pela abstenção, pelo voto nulo ou branco, praticamente um terço do eleitorado. Isso é muito sério, com todo respeito a essas pessoas e entendendo suas motivações, pois é um recado que estão dando para os partidos e para nós, políticos, na questão da ética, do compromisso, da competência. No entanto, quando a pessoa se abstém de votar está abrindo mão da sua condição de cidadã, abdicando da sua dimensão coletiva, social, comunitária, como se dissesse: “não tenho nada a ver com isso”. Ao tentar dizer que não tem nada a ver com um tipo de prática política, na verdade acaba se divorciando da sociedade, e isso é muito ruim, porque a gente só constrói uma sociedade justa e democrática com a participação das pessoas.

Blog: Quais as feições do embate de 2014?

Patrus: O PT estadual deve se preparar, do ponto de vista político e dentro de uma firme unidade, para o desafio de 2014. É preciso aprofundar a interlocução com o PT Nacional, com o presidente Lula e com a presidenta Dilma, mas também a aprimorar a questão programática. O PT-MG precisa atualizar seus procedimentos, estudar profundamente o estado, retomar a formação política, recuperar sua tradição de ser um espaço pedagógico.

Com relação aos nossos adversários, eu vi muito, da parte do ex-governador de Minas e atual senador, um grande esforço para neutralizar o PT e mascarar o encolhimento do seu partido. Para isso ele não hesitou em fazer as mais díspares alianças e prestar os mais opostos apoios – ao PCdoB em Contagem, ao PMDB em Juiz de Fora, ao PRB em Montes Claros –, tentando também abafar a derrota do PSDB nessas cidades já no primeiro turno, mesmo com lideranças históricas do partido, como o ex-prefeito de Juiz de Fora. Só para exemplificar, em Uberaba o candidato do PSDB ficou em quinto lugar, à frente apenas do PPS! Se fosse o PT a fazer essa salada, seria duramente criticado.

A verdade é que o PT venceu em 26 das 50 maiores cidades mineiras e colheu nada menos que 755 mil votos a mais que o PSDB no estado. Além disso, o PT ampliou o número de municípios mineiros que governará, enquanto o PSDB diminuiu de tamanho.

Há um esforço enorme por parte do ex-governador para controlar tudo em Minas, a opinião pública, o Legislativo, a imprensa, o Ministério Público, até o Judiciário, mas as eleições mostraram que Minas não é dominável. Ficou claro o tamanho da resistência a essa tentativa, até porque o projeto político dele é muito vazio. Ele fez um governo que não vai deixar marcas para a história. Falou que tinha acertado as contas do estado e nós estamos vendo a dívida. O governador atual também está enfrentando essas contradições.

O fato é que eles não conseguiram estabelecer essa hegemonia, mas continuam tentando, e é fundamental uma ação vigorosa do PT para o plano estadual, em sintonia com a Direção Nacional, olhando a importância de Minas e de BH no cenário brasileiro. Em 2014 nós estaremos claramente em campos diferentes, numa disputa pela hegemonia no estado e no Brasil. Ele é o PSDB, o neoliberalismo colonizado, a exclusão da maioria. Nós somos o PT, os partidos de centro-esquerda, o campo democrático-popular, os movimentos sociais, o país para todos. Somos muito diferentes e Minas está descobrindo isso.

Blog: Que mensagem o PT deve levar aos mineiros?

Patrus: Temos que puxar para frente o papel do PT em Minas. Como disse, ampliar a interlocução com diversos setores, reafirmar nossa história. O PT acumulou muito ao longo das campanhas das quais participou desde 1982, mas nós vivemos um novo momento, novos desafios, a questão tecnológica, a ambiental…

Temos que reconhecer que o Brasil mudou a partir do governo Lula. Uma nova realidade pede novas abordagens. Melhorar expressivamente os serviços públicos é fundamental, na saúde, no transporte, na educação… Ao mesmo tempo em que é preciso manter e ampliar o que foi feito, essa grande rede de proteção e inclusão social que nós montamos e da qual o Bolsa Família é referência fundamental, é indispensável conectá-la a serviços universais de qualidade. Junto disso, aguçar nossa visão do desenvolvimento, investindo em formação profissional avançada, em tecnologia limpa e de ponta, fazendo com que a reinserção de Minas no ciclo produtivo nacional e internacional se dê noutro patamar, menos dependente de um ou dois setores da economia, dando vazão a suas múltiplas vocações, agregando valor, sustentabilidade, eficiência e, principalmente, muito mais justiça social.

5 ideias sobre “Minas mandou dizer que não tem dono

  1. Bom acho que as “alianças” acontecem para conseguir a “governabilidade”, aconteceu com Fernaando Henrique e o PT falou muito delas, aconteceu com Lula e o PSDB falou também. Acho que o Sr. Patrus é um excelente cidadão e foi pra mim o melhor prefeito que BH teve nesses últimos tempos, mas as alianças que o PT tem feito fogem da identidade do partido. MAs enfim GOVERNABILIDADE.

  2. Patrus eu estarei com você aonde a o que se candidatar e ainda mais pedirei votos ao Senhor pois eu confio em você e ainda posso jovem mas de qualquer jeito sei que você é o melhor…

  3. Concordo que o desafio do PT neste momento é reaproximar da militância histórica (pela experiência e perseverança) e fomentar novo processo de mobilização e formação política de novos militantes. Para isso será necessário fomentar espaços e atividades partidárias e sociais, onde, as pessoas, cuja relação é de militância voluntária possamos contribuir de forma efetiva. Continuo acreditando… as eleições em BH, a volta do Nilmário ao Congresso, o bom desempenho do PT, o trabalho de militantes históricos que fizeram campanha limpa, especialmente aqueles e aquelas que não se elegeram, meu grande abraço.

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