Dia dos mortos, dia dos vivos

Celebramos hoje a memória dos nossos mortos.

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Estou entre aqueles que não esquecem as pessoas queridas que partiram. Gosto de falar sobre elas. À medida que a idade avança, as lembranças vão se avolumando. Como diria o nosso memorialista Pedro Nava: “Saudade, saudades…”

Dentro das limitações da nossa frágil condição humana, procuro guardar no coração e na memória aqueles que me estenderam a mão em diferentes momentos da minha vida. São muitas e muitos. Vêm num crescendo. Encontrei muita acolhida e gestos fraternos de solidariedade e companheirismo. Procuro escutá-los na comunicação misteriosa da alma, dos desejos, dos sonhos, dos projetos. Penso sobre o que diriam ou fariam nos diferentes momentos existenciais da minha, da nossa caminhada, ou em face dos contextos políticos, econômicos, sociais, culturais, ideológicos, ambientais que nos desafiam. Sempre revendo com eles a nossa dimensão coletiva, comunitária, como nos repõe, de forma tão bonita e vigorosa, o Papa Francisco neste documento belíssimo que é a Fratelli Tutti —  Sobre a fraternidade e a amizade social.

Fico com vontade de citar todas as pessoas que partilharam comigo as inquietações, lutas e compromissos que pautam a minha vida, a nossa vida, sempre na busca de formas mais elevadas de convivência e organização social. Mencioná-las seria ir muito além dos limites deste espaço e do nosso breve tempo. Presto minhas homenagens à memória de todos que estiveram comigo nas pessoas que me acompanharam desde o início: meus pais, Maria Tereza e Jair; minha avó Conceição, também forte e generosa presença em meus caminhos.

Aos que partiram na juventude, colhidos pela violência, pelo imprevisto dos acidentes ou pelos limites da nossa própria condição, homenageio-os na pessoa da Patrícia, minha irmã, que se encantou, como diria Guimarães Rosa, aos vinte anos. “As pessoas não morrem; ficam encantadas”. O coração se desdobra em outra frase poética: “Mas como dói!”. Lembro também do Cal, sobrinho da Vera e meu, a quem amávamos (e amamos) como filho.

O corte definitivo na convivência corporal direta, dialogante, é muito penoso. Por isso, muitos optam pelo esquecimento. Prefiro optar pelas lembranças — ainda que às vezes sofridas.

Penso então que a melhor maneira de celebrarmos a memória dos nossos mortos, além de não esquecê-los, é defendermos a VIDA como o bem maior que recebemos e que, assim, deve coesionar as nossas relações sociais, os espaços comunitários. Todos os esforços devem ser mobilizados para que ninguém morra vítima da violência ou de descuidos inaceitáveis como a fome, a desnutrição, a ausência de cuidados preventivos e curativos com a saúde, o desemprego, o trabalho em condições aviltantes e perigosas, a impossibilidade de morar e conviver com dignidade, a insensatez no trânsito, nas cidades e nas estradas; a falta de cuidados com a natureza, a mãe terra, as águas, as fontes da vida.

Só reverenciamos em verdade os nossos mortos quando mobilizamos todos os recursos para que as pessoas que nos são queridas, e as pessoas que são queridas a milhares, milhões de outras pessoas, vale dizer, todos os seres humanos possam bem cumprir o seu tempo existencial sem atropelos ou mortes prematuras, provocadas pela ganância, pela ambição desmedida em busca do dinheiro e do lucro a qualquer preço, pela insensatez, pela nossa indiferença e omissão.

Lembremos a frase de Jesus, que atravessa os séculos e os milênios: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em plenitude”.

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